O crononauta e o gatilho da memória


Como um Crononauta, voltei no tempo nesta tarde, quando passei pelo pequeno parque naquela praça da cidade, onde jaz uma locomotiva do lado de balanços, escorregadores e gangorras... A imagem do trenzinho estático já fazem décadas, disparou o gatilho da memória e fez-me lembrar de meu pai que, quando eu era menino, junto com minha mãe e irmãos, nos levou numa incrível viagem. Ele tirou fotos, quando havia limite de poses, e se aventurou a revelar por sua conta e risco as fotografias. Comprou material, fechou-se num quarto escuro. Resultado: queimou literalmente o filme. As fotografias jamais foram reveladas em papel, mas continuam nítidas na memória do menino que eu já fui e nunca deixou de me habitar. Habituo-me com as modernidades da tecnologia, embora tenha que conviver com as banalidades de poder tirar dezenas, centenas, milhares de fotos que não precisam sequer ser reveladas. Ficam presas, armazenadas na memória virtual de um computador... Computar dados é fácil, a máquina faz este trabalho por nós... Computar a dor de uma saudade daqueles viajantes do tempo, como meu pai, que de repente se vão, é mais difícil... Sorte que como Crononautas podemos, vez em quando, disparar o gatilho do tempo e retornar a lugares que permanecem intactos somente dentro de nós...

José Antonio Klaes Roig

Observação 1: Microconto acima de minha autoria, escrito em 02/10/2013 e protegido pela lei de direitos autorais.
Observação 2: Imagem acima, Crononauta, encontrada na internet.
Observação 3: Texto escrito ao som da canção Only The Young (Somente os jovens), de Brando Flowers, vocalista da bana The Killers, belo vídeoclipe abaixo:



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