28/06/2009

E o meu mundo se acabou


Bolívia... pra sempre se foi!
Formosa era sua pele clara,
Hoje é Cingapura... ilusão,
Mas uma Dinamarca... me deixou.

Guiana... era seu prenome
Nos olhos trazia El Salvador... de uma guerra
Tenho fome, quero Japão, me disse...
Venezuela... sabia que eu iria logo me apaixonar!

Em Honduras penas aprendi:
Jamaica... irei de novo me iludir
Até sua Guatemala... vazia levou.

Muita Nicarágua... ardente bebi
Por toda noite, só pra te esquecer
Canadá... pra perceber agora
Que o meu mundo se acabou.

José Antonio Klaes Roig

Observação 1: Poema de minha autoria, feito em, 21/04/1990 e republicado no blog, em função do golpe de estado em Honduras.
Observação 2: Imagem acima, colagem de minha autoria, feita com recortes de revistas antigas, usando apenas tesoura e cola bastão, digitalizando o resultado para o computador.

20/06/2009

20 de junho - Dia Mundial do Refugiado - 2009


Fonte: http://www.youtube.com/watch?v=k1mIVp1Ti3M

Aderindo a iniciativa de amigo, via twitter, coloco no blog ControlVerso o vídeo com a belíssima canção "Areia Santa" de Belô Velloso, que faz parte do World Refugee Day 2009 (Dia Mundial do Refugiado 2009).

#WRD09
#RefugeeDayLive

Official Twitter: http://twitter.com/RefugeeDayLive

Official Website: http://www.refugeedaylive.org

Official Website: http://www.wrdlive.org

Official Twitter Belô Velloso: http://twitter.com/belovelloso

Let's all make a difference together!

Vamos fazer a diferença juntos!

17/06/2009

Por essa ninguém esperava II: modelo Jesus Luz mais famoso que Jesus Cristo, no Google


Quando li essa notícia em uma revista só acreditei vendo:
Jesus Luz (vide Madonna, a cantora popstar) tem mais registros no Google que Jesus Cristo (filho de Madona, a original, mãe Dele), vejam lá...

Pesquisar no Google

Quando fiz essa pesquisa, em 15/06/2009, à noite, apareceu o seguinte:

Jesus Luz, o modelo brasileiro que teve affair com a cantora Madonna, no Google aparece em 7.560.000 páginas e o Jesus da Cruz, O Cristo, em "apenas" 3.430.000.

No chamado "deus Google", segundo pesquisa com adolescentes secundários nos EUA e Brasil, indicou que o que lá não está, para alguns, é indicação de que isso não existe.
Usando aquela lógica desfocada (apenas uma brincadeira, por favor, não me entendam mal...), se Jesus Luz é brasileiro, e no Google tem mais indicações que o Filho Dele, será que é um indício que Deus é de fato brasileiro?
Na verdade, isso é um indicador dos tempos em que vivemos, em que a moda e o consumismo sobre a vida das celebridades - que muitas são célebres apenas por isso mesmo, por serem famosas, ou terem affairs com gente famosa - dá mais exposição que símbolos religiosos e outros valores, relegados a segundo plano.
É o eterno embate entre o sagrado e o profano (vie imagem acima). E no meio disso tudo está também Madona, a mãe de Jesus Cristo e a cantora pop norte-americana.
A vida real e a digital, cada vez mais, se fundem e se confudem...
John Lennon, no auge da fama dos Beatles chegou a dizer que sua banda era mais famosa que Jesus Cristo.

Vejam placar atualizado em 16/06/2009, pesquisando apenas pelo nome:

Jesus Luz: 9.920.000
Jesus Cristo: 6.820.000

Se fosse um reality show, nem é preciso dizer quem (com esses números) iria pro "paredão".
Um sinal do poder da web, hoje em dia, sobre corações e mentes...
Fiat lux (Faça-se a luz!)...

Observação 1: Imagem acima, colagem digital, feita por mim no paint brush, usando as imagens de JL e JC, extraídas da internet, dos seguintes endereços.
http://www.jesussite.com.br/acervo.asp?Id=230
http://blogsaladadefrutas.com.br/wp-content/uploads/2008/12/jesus_luz.jpg
Observação 2: O texo acima, de minha autoria, foi publicado originalmente no outro blog Letra Viva do Roig.

Por essa ninguém esperava: contribuição inusitada de W. Bush à ciência


Notícia de portal Folha Online (em 12/06/09) surpreende, vejam no link abaixo:

Estudo mostra que Bush contribuiu com a ciência ao se esquivar de sapatos

Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/folha/ciencia/ult306u580193.shtml

Para quem, como eu, acha que a contribuição de W. Bush à história da humanidade foi a pior possível, com suspeitas de fraude na eleição que tirou o mandato de Al Gore (que acabou produzindo o incrível vídeo Uma Verdade Inconveniente); que não soube prever os atentados, e mesmo quando os EUA estava sob ataque ele ficou impressionantes 7 minutos estáticos numa escola pública americana; que desobedeceu resoluções da ONU, invadiu e destruiu Afeganistão e Iraque, a título de descobrir armas de destruição em massa e capturar o terrorista Osama bin Laden, não encontrando a ambos; enfim, que trouxe um retrocesso inclusive às pesquisas com células tronco, faliu seu país e quase o mundo junto...
Pois bem, o ex-Senhor da Guerra contribuiu para a ciência, de forma indireta, imprevisível e inacreditável ao se esquivar do par de sapatos arremessado contra ele por um jornalista iraquiano, em dezembro de 2008.

Segundo a notícia: "Os reflexos de Bush e a falta de reação do primeiro-ministro iraquiano, Nouri al-Maliki, que estava ao lado do ex-presidente, durante o incidente, comprovam a teoria de neurocientistas da Universidade de Washington de que "existem duas vias independentes no sistema visual humano".

Vejam a notícia na íntegra, no link acima indicado.

A vida é surpreendente, e nesse caso específico, contradizendo máxima do humorista Apparício Torelly, auto-intitulado Barão de Itararé, quando disse que: "De onde menos se espera é que não acontece nada mesmo".

Observação 1: Imagem acima, extraída da internet, do endereço abaixo:
http://www1.folha.uol.com.br/folha/ciencia/ult306u580193.shtml
Observação 2: Texto acima, de minha autoria, publicado originalmente no blog Letra Viva do Roig.

12/06/2009

A realidade plagiou a ficção?


Que a vida é intertextual com todas as formas de expressão artística, isso não canso de comentar. No meu blog Letra Viva do Roig, já publiquei diversos artigos de opinião, em que demonstro essa inter e hipertextualidade.
Mas às vezes aquela sensação de dejà vú, de já ter assistido uma notícia no telejornal que remete a cena de um filme é espantosa.
No caso do trágico acidente envolvendo o voo 447 de Air France com a série Lost (em sua 5ª temporada de sucesso) é, para mim, uma incrível coincidência.
Vejam alguns aspectos semelhantes entre o noticiário e o enredo de Lost:

O voo 447 da Air France, quando desapareceu dos radares, fez o noticiário especular que poderia ter caído entre a costa do Brasil e da África (rota de voo rumo a Paris).

Agora a perícia acha que o avião pode ter se partido em voo (conforme link abaixo):

Perícia reforça hipótese de que avião se partiu

http://br.noticias.yahoo.com/s/12062009/25/manchetes-voo-447-pericia-reforca-hipotese.html

Sinistro: esse acidente com o avião Air France, desde o início lembra o fictício voo 815 da também fictícia empresa aérea Oceanic, na série Lost: primeiro não sabiam onde estava, depois os sobreviventes ficam perdidos numa ilha, no meio do nada.

Com essa suspeita da perícia de que o avião possa ter se partido ao meio em pleno voo, remete novamente quem é fã da série Lost ao voo 815 da Oceanic, que literalmente se partiu ao meio (imagem acima), por conta de forças eletromagnéticas envolvendo a ilha.

Muitas vezes a arte imita a vida, mas noutras vezes - de forma irônica, paradoxal e controversa - acontece justamente o contrário. Muito sinistro isso...

Os sobreviventes de Lost caíram numa ilha paradisíaca, muito similar a de Fernando de Noronha, uma curiosa coincidência...

De acordo com a notícia (link acima), há indicações de que os corpos foram encontrados em duas linhas, 85km distantes um grupo do outro.

Em Lost, os sobreviventes das duas partes do avião caem em extremos da ilha, e se reencontram se não me falha a memória no ano 2 ou 3 da série.

Parece que em alguns momentos, não apenas J.J. Abrams e Damon Lindelof, produtores e criadores da série, como outros mais, se superam em criatividade e originalidade, fazendo com que a vida pareça plagiar a ficção, seja ela científica ou não...

Sinistro, muito sinistro tudo isso...

O que comprova que apesar de todo o avanço tecnológico, ainda estamos sujeitos a mistérios como o do acidente trágico, caso não venha a ser descoberta a caixa-preta do voo 447.

Mas as semelhanças encerram-se por ai. Ainda não sabemos o que nos aguarda, fãs da série Lost, na 6ª e última temporada, a ir ao ar em 2010... Infelizmente, no caso do acidente real, ao que tudo indica, lamentavelmente não há sobreviventes...

Observação 1: Imagem acima, extraída da internet, do endereço abaixo
http://www.teoriaslost.com/2008/09/4-anos-da-queda-do-oceanic-815.html

11/06/2009

Cada um no seu quadrado?



Cristiano Ronaldo vendido p Manchester United por 255 milhões reais ou 94 milhões euros! Em merrecas que é a moeda que o educador ganha, não sei quanto isso dá...
Real Madrid não caiu na real? Futebol é esporte coletivo! Já teve no mesmo time Zidane (73 milhões euros), Figo (60 milhões), Beckham e daí? (veja noticia aqui).
Com tantos egos bilionários, não venceu nem convenceu tempos atrás. Agora com Kaká (65 milhões euros) e Cristiano Ronaldo, uma nova constelação é formada.
Na educação, um buraco negro tenta engolir o salário dos professores, principalmente quando certos governantes querem flexibilizar os planos de carreira para excluir certos direitos.
Kaká, vendido pelo Milan ao Real Madrid por 65 milhões euros = 177 milhões reais, receberá 25 milhões por ano e 77 mil por dia! Isso mesmo! Ao dia! Amém...doim!Se hoje eu fosse menino, e me perguntassem o que eu desejaria ser quando crescesse, não teria dúvida: jogador de futebol. Educador? Nem pensar!
Como culpar os jovens, se 9 entre 10 querem ser jogador de bola ao invés de outra coisa?
Mas não dá nada (como dizem os jovens): nasci na época errada (será?) em 1 dia de trabalho de Kaká equivale a cerca de 5 anos de um educador... O meu caso específico...
Daqui a 5 anos Kaká (que é um craque da bola) terá 125 milhões a mais em sua conta! Sem falar que popstar não paga nada em nenhum lugar, ganha Ferraris grátis etc.
Conheço craques do giz, do quadro negro, da informática educativa que por mais que com seu trabalho transformem a vida de seus alunos, sua escola e comunidade, jamais receberão a décima parte do que ganha Kaká, Robinho, Ronaldos...
Pra explicar isso nem a soma dos quadrados dos catetos igual a hipotenusa ao quadrado. Enfim, como diz uma canção: "cada um no seu quadrado".
O quadrado do professor é uma sala de cerca de 5 metros x 10 metros; o do jogador é 10 vezes maior, um campo de futebol tem cerca de 105 m de comprimento por 75 metros de largura. Questão de espaço (na mídia)?...
Quando vejo autoridades usarem o espaço na mídia para acusar a educação e os educadores, ou para reprimir de forma aparentemente violenta e desproporcional como já aconteceu no R$ e está acontecendo em $P, tenho uma vontade de desistir de tudo...
Mas quando estou em aula com alunos ou dando formação em informática educativa a professores, alguns deles que foram meus professores (quando sequer o computador pessoal era popularizado), acabo desistindo de desistir...
Assim como o futebol, educação é vocação. Ou se nasce gostando do que se faz, ou não há jeito de ser um bom esportista ou bom educador...
Ado, ado, ado... cada um no seu quadrado (refrão de uma canção).
Não desejaria ganhar tudo o que Kaká irá receber, mas me contentaria em receber proporcionalmente ao meu quadrado em relação ao quadrado do que os grandes jogadores de futebol recebem.
Para fazer esse curioso cálculo, sugiro a leitura do livro O Homem Que Calculava, de Malba Tahan, principalmente naquela parte em que o sábio do reino propõe ao rei receber por seus profundos conselhos um grão de arroz por cada quadrado do tabuleiro de xadrez, sendo a cada quadro duplicado...
Eu estaria feliz em minha aposentadoria (quando ela chegar), se não precisar estar pulando de quadrado em quadrado, acumulando diversos empregos, como muitos colegas fazem para poder sobreviver com dignidade, após 25, 30 anos de serviço público, cada vez menos reconhecido pelo gestor público e, literalmente bombardeado (vide conflito na USP) por ações desproporcionais...
E cada vez mais tendo que morar em quadrados cada vez menores...
Quem sabe, quando eu crescer, noutra "encadernação", eu venho com um talento natural para jogar bola e, quem sabe ai, o mundo que é uma bola, possa ter girado em sentido contrário, valorizando cada um no seu quadrado, de forma proporcional ao seu merecimento...

Observação 1: Imagem acima, colagem de minha autoria, feita a partir de recortes de revistas antigas, usando tesoura e cola bastão e digitalizando seu resultado para o computador.
Observação 2: imagem acima, já utilizada anteriormente neste blog, para ilustrar o artigo de opinião de minha autoria, intitulado Futebol: a metáfora de vida V.
http://controlverso.blogspot.com/2008/03/futebol-metfora-da-vida-v.html
Observação 3: Abaixo, link para quem não é do Brasil entender o que é a Dança do Quadrado, que inspirou o título desta postagem.

Dança do Quadrado

26/05/2009

arte & fato: revisitando Quintana


Foto: de José Antonio Klaes Roig e sua misteriosa pauta musical...

Texto: Poeminha do contra

Todos estes que aí estão
Atravancando o meu caminho,
Eles passarão.
Eu passarinho!


Autor: Mario Quintana

Observação: A arte de Mario Quintana - natural de Alegrete - RS - Brasil, um dos maiores poetas brasileiros - unida ao fato, ou melhor, a foto capturada por mim num dia desses de sol, ao entardecer, tempos atrás; tirada a pouco mais de uma quadra de minha casa, como a câmera de meu celular. A vida imita a arte e a arte imita a vida, como bem nos ensinou o velho e bom Quintana.

18/05/2009

Invasores de corpos


Na aurora de minha vida, vi uma luz riscar o céu...
Meu pai disse tratar-se de um cometa, meu irmão, de um disco voador... Nunca esqueci aquela imagem até o dia que na TV assisti a um curioso filme chamado Invasores de Corpos que era uma refilmagem de um clássico da ficção científica intitulado Vampiros de Almas... Na história de ambos, alienígenas chegam ao planeta e tomam conta dos corpos das pessoas...
Naquela noite de inverno, depois de ver o filme, não consegui dormir. Levantei diversas vezes para ver se a porta estava trancada, se as janelas estavam fechadas, se o assobio do vento lá fora não era algum sinal misterioso para a invasão...
Cresci e os filmes passaram a ser tratados tão-somente como tais, fábulas modernas, reinvenções da vida, intertextualidade com o imaginário...
E tudo transcorreu em plena tranquilidade, até o dia que meus pensamentos começaram a não mais me pertencer... Minhas palavras aparecerem disfarçadas nas palavras escritas e faladas de outros... Que tudo que eu pensava, logo alguém estava sendo mais criativo do que eu, reescrevendo minhas ideias doutra forma...
Naquele dia, pude voltar aos tempos de menino, com receio de que os alienígenas estivessem de fato entre nós, invadindo nossos corpos, devassando nossos pensamentos, substituindo nossas ideias pelas suas, sem que a maioria se apercebesse disso...
Tenho medo de um dia abrir um jornal e ver meu clone tomando meu lugar sem que ninguém perceba... Essa invasão possui um código estranho, que é acionada de forma subliminar pela via informatizada e invadirá em breve o mundo inteiro. Basta apertar a tecla "control", associada às teclas C e V...

José Antonio Klaes Roig

Observação 1: Mini conto acima, originalmente criado para o blog REM - Rápido Movimento do Olhar e publicado lá em 14/05/2009; projeto de literatura colaborativa com a colega Elis Zampieri, de Curitibanos - SC - Brasil, editora do blog Etc e tal: entre o caos e o cósmico.
Observação 2: A imagem acima, colagem de minha autoria (feita em 2008), a partir de recortes de revistas antigas, usando tesoura e cola bastão, e digitalizando o resultado para o computador.

21/04/2009

(Con) Fuso Horário



Um vulto passeia só e são
Pela praça mal iluminada de hoje,
Preso em seu eterno círculo de giz.
Um anjo doido daqueles de dar até dó
Equilibra-se como pode (e como pode!)
Na tênue linha azul do horizonte.
Eu bem sei que ser feliz atualmente
É coisa rara para uns poucos tolos
Que passam a vida toda a ejacular
Sonhos que jamais realizarão;
Maturando (masturbando) velhas ilusões.
Sei que um dia, qualquer dia, talvez,
Voltaremos a nos encontrar por aí
Numa dessas milhares de esquinas tortas
Deste torto mundo tonto.
Estaremos, com certeza,
Mais velhos, mais sérios, mais maduros,
E sei lá mais o quê.
Nós passaremos a outros
Este nosso imperceptível disco solar...
Só mesmo este tempo mágico caduco,
Que somente conhece a eternidade
Daqueles poucos tolos que não têm pressa alguma,
Permanecerá para todo o sempre,
Pra sempre todo, no mesmo lugar...


José Antonio Klaes Roig


Observação 1: Poesia feita em 15/09/1989 (quase 20 anos atrás), e protegida pela lei de direitos autorais. Sua reprodução é proibida sem a autorização prévia do autor.
Observação 2: A imagem acima, colagem de minha autoria (feita a cerca de 10 anos atrás), a partir de recortes de revistas antigas, usando tesoura e cola bastão, e digitalizando o resultado para o computador.

13/04/2009

Professor: Profissão de Risco?


Mergulhador, mineiro, bombeiro e policial são profissões expostas ao risco diário. Exceto as duas últimas, as demais são bem remuneradas. A profissão de professor, diante do aumento das agressões no meio escolar, passou a ser de risco para quem se expõe a sobressaltos.
O magistério público perdeu status e conquistas, por conta de sucessivas administrações políticas que gerenciam a coisa pública de forma empresarial. O lado financeiro da folha de pessoal - a maior em qualquer governo, pelo número de servidores e não por altos salários inexistentes – é o que se sobressai. Os educadores perderam a política salarial; a reposição, quando ocorre, é abaixo do reajuste dos serviços públicos e dos preços da iniciativa privada. Piso nacional e planos de carreira são contestados. Fala-se em premiar os melhores, mas educar é compartilhar solidária e não solitariamente os resultados.
Dados históricos demonstram que conquistas e manutenção de direitos decorreram do ato de não trabalhar; ou seja, a greve. Sem tal mecanismo de pressão social, a remuneração seria mais baixa. Com ele, conservou-se o mínimo de dignidade. Com a manutenção pela Assembléia Legislativa (RS) da decisão da governadora de não pagar pelos dias de greve aos trabalhadores em educação, instituiu-se a não-remuneração do trabalho recuperado. Constituiu-se ao exercício de fato suposta forma preventiva contra futuras greves. Há 16 anos exercendo variadas funções na educação pública, lamento tal situação. Em contrapartida, pipocam escândalos país afora e aqui no Estado, com alguns ganhando (e muito!) sem trabalhar. Quantias que deveriam ser destinadas a investimentos sociais e na melhoria do salário dos que trabalham.
A “pedagogia do exemplo” de professores, pais e autoridades proporciona aos jovens o espelhamento social. A escola, sem conseguir resolver seus problemas, não resolverá os da sociedade, pois a família, salvo exceções, desonerou-se do papel fundamental de também educar às crianças, deixando tudo a cargo da televisão, internet etc. Pais que comparecem à escola são raros; e os que deveriam, vão mais para a defesa intransigente do que desconhecem. Querem saber a causa do aluno-problema? Conheçam seus pais! Pai desinteressado é conivente com o futuro de risco do filho.
De celebridades a comentaristas esportivos, todos - distantes da escola pública - creem na solução para a violência, a corrupção etc. passar pela educação. Até é, mas e a solução para servidores desmotivados e/ou intimidados? Educadores não são máquinas e cada vez mais adoecem por problemas físicos e emocionais. E enfermos, são descontados, pois para o sistema quem não trabalha não tem a integralidade do salário; salvo se for político profissional, legislando em causa própria, e ganhando muito pelo pouco que faz, quando faz.
Profissão de risco é aquela que expõe alguém a desgastes desnecessários. Pleitos judiciais para receber o que é devido levam anos; quando faz-se justiça, abre-se mão de parte do montante se quiser receber em vida, pois precatórios serão para netos usufruírem. Quando noticiam mais um professor agredido ou ameaçado por aluno, pai e outros, vem à tona a consciência de que a escola é o reflexo da família e da sociedade desestruturadas, cobrando da escola mais do que instrução.
Sem a valorização profissional da categoria, corre-se o risco da extinção de educadores libertários, restando apenas burocratas do saber, que cumprem metas estatísticas sem visar à emancipação do cidadão. Um mundo burocratizado é um risco para qualquer povo. Perde-se em inventividade, independência e solidariedade. Sem o professor ninguém teria profissão. E quando o educador sente-se em risco, comprometida está a formação das gerações futuras. Portanto, valorizar a categoria mais que um ou outro profissional é o dever de todos, pois tudo é transitório, menos o eterno ato de educar.

José Antonio Klaes Roig, educador.

Observação 1: Imagem acima, colagem de minha autoria, a partir de recortes de revistas antigas, usando apenas tesoura e cola bastão e digitalizando o resultado para o computador.
Observação 2: Sugiro também a leitura do artigo de opinião que vem de encontro ao Professor: Profissão de Risco, intitulado Ideologia corporativa, de autoria do colega Alexandre Reinaldo Protásio, conselheiro estadual do CPERS/Sindicato dos Trabalhadores em Educação do Estado do Rio Grande do Sul. O referido artigo foi publicado no dia 12/04/2009, no Jornal Agora, de Rio Grande - RS - Brasil.
http://www.jornalagora.com.br/site/index.php?caderno=27¬icia=64521
Observação 3: Artigo de opinião Professor: Profissão de Risco?, publicado em 13/04/2009, no Jornal Agora (www.jornalagora.com.br), de Rio Grande - RS - Brasil, confirme endereço abaixo:
http://www.jornalagora.com.br/site/index.php?caderno=27¬icia=64528
Observação 4: Artigo publicado em 15/04/09 no portal e-educador.com.

12/04/2009

O Ponto Cego na Informação



Ponto cego é a região onde a visão não alcança. Existem diversos tipos.
Segundo o Intituto Vizibelli: “(...) é onde todos os neurônios se juntam e o nervo óptico leva a informação do olho até o cérebro. Esta área não tem foto-receptores. Se um raio de luz penetra seu olho e é focalizado nesta área, o cérebro não recebe nenhuma informação.”
De acordo com o portal Webmotors: “Parte dos acidentes envolvendo veículos, pedestres, motocicletas e bicicletas, além de objetos imóveis, ocorre porque, em determinado momento, um desses elementos se encontra na trajetória de um veículo, mas fora do alcance de visão do motorista. Está numa área de não-visibilidade, o popular ponto cego.”
Na aviação, sabe-se que alguns pontos do espaço aéreo não estão cobertos pelos radares, e que os controladores de voo também chamam de “ponto cego”, onde poderá ocorrer colisões, como supostamente aconteceu com o Boeing da Gol e um avião de pequeno porte.
Porém, o que chama a atenção é o “ponto cego” na grande mídia, quando sabendo de notícia desabonadora contra alguém em especial, recusa-se a publicar, e noutras vezes mesmo suspeitando da origem e das fontes, se contra desafetos publica com grande repercussão. Qual a motivação? Um exemplo é o caso do delegado da PF Protógenes Queirós versus o banqueiro do Opportunity Daniel Dantas. Para parte da grande imprensa há um ponto cego quanto as denúncias do policial contra o banqueiro (que sumiu da mídia); e uma exagerada investigação a respeito da suposta motivação de Protógenes em exercer sua função. Até mesmo o juiz federal De Sanctis passou a ser investigado, mais que o acusado. O presidente do Supremo manifestando-se fora dos autos, bateu recorde na concessão de 2 habeas corpus em favor de Dantas. O país perdeu grande opportunity, aliás, oportunidade, de mostrar que as instâncias respeitam seus limites, sem confundir os papéis entre mocinhos & bandidos. Há muita coisa não esclarecida; e ao que indica, Dantas conhece bem o ponto cego de diversas figuras ilustres da Nação.
Outro ponto cego une futebol e política. Sabe-se de antemão que certas indicações para cargos políticos e escalações de time não darão resultado, pois são feitas por conta de interesses político-partidários ou esportivo-empresariais. Interesses estranhos colocam cidadãos suspeitos em cargos relevantes e jogadores medianos em seleções que disputam Copa do Mundo - como o caso de Bismarck, do Vasco (1990). Qual foi a contribuição do dito cujo ao futebol nacional e internacional?
Causou surpresa a entrevista/desabafo de Adriano, após uma semana no “ponto cego”, alegando em seu retorno o desejo de dar um tempo na carreira. Sem querer pré-julgar nem entrar na seara psicológica, parece-me que tanto ele como Kaká são exemplos de pessoas que abriram os olhos e desejam sair desse ponto cego da fama e da fortuna a qualquer preço. Kaká não aceitou a proposta milionária do Manchester City, preferindo ficar no time em que se sente bem; Adriano prefere dar um tempo aos milhões, fama, etc para ficar mais próximo da família, de sua comunidade numa favela do RJ. A morte do pai foi um divisor de águas em sua carreira. O sucesso, fama, fortuna instantâneos a jovens ainda alicerçando a personalidade poderá levá-los ao isolamento, ainda que rodeados de “amigos” de última hora e paparazzis.
Sabido é que futebol e política possuem pontos cegos. Incompreensível o que faz um jogador valer milhões em passe e salários! Da mesma forma, inexplicável políticos investirem milhões para receber algo que não os ressarcirá sequer os custos. Vocação social? Du-vi-de-o-dó... Enquanto os pontos cegos na sociedade persistirem, muitos continuarão a ver as coisas de um jeito, enquanto a mídia divulga coisas contrárias ao senso comum. Parafraseando aforismo: “Nem sempre temos uma segunda opportunity para causar uma boa primeira impressão”.

José Antonio Klaes Roig

Observação: Imagem acima, fragmento de colagem, feita a cerca de 10 anos atrás, a partir de recortes de revistas antigas, usando tesoura e cola bastão.

01/04/2009

A língua secreta


Ela disse papel quando queria dizer tesoura.
Ele retribui-lhe o jogo de palavras dizendo pedra
quando queria mesmo falar em flor.
Ela olhou para o jovem num brilho intenso de sol,
mas suas palavras vagaram pelo céu da boca
de forma burocrática e sem sal...
Ele quis comentar com a garota de seus sonhos
que os olhos dela eram profundos como o mar,
mas as suas palavras ficaram congeladas
apenas na superficialidade de um iceberg
vagando sem destino num copo de cerveja polar...
A história de homens e mulheres
é escrita mais com silêncios do que discursos;
mais com dúvidas do que certezas.
Quando a boca da amada diz não,
seus olhos contraditórios dizem talvez;
quando ele investe na conquista,
teme o não da bela, adormecida em seu sonho,
mais do que a ira de um exército de bárbaros,
destruindo tudo o que encontram ao redor.
Entre o pensar, o falar e o escrever
há uma estranha língua secreta
que ninguém ousa psicografar,
e que nenhum iniciado poderá decifrar.
Somente os poetas e os loucos veem algo
onde nada é dito nem declarado...
Tudo é subentendido, implícito, tácito...
Apenas os sonhadores vivem para acreditar
que as palavras podem transformar o mundo.
Há uma língua secreta a ser decodificada
toda vez que alguém se cala dentro si
e apenas consigo mesmo consegue dialogar.
Há um código secreto vivo na linguagem
toda vez que alguém diz algo sem sequer falar...

José Antonio Klaes Roig

Observação 1: Poesia feita em 01/04/2009, e protegida pela lei de direitos autorais. Sua reprodução é proibida sem a autorização prévia do autor.
Observação 2: A imagem acima, colagem de minha autoria (feita em 2008), a partir de recortes de revistas antigas, usando tesoura e cola bastão, e digitalizando o resultado para o computador.

09/03/2009

Mínimos, múltiplos e incomuns


Os pingos da chuva
e as cascas de uva pelo chão
confundem o teu pisar com o meu pesar...
E pensar que a noite para alguns
é mais do que a morte do dia;
que a alegria em conta-gotas
poderá contagiar a tua multidão.

Entre o terror da morte e a sorte no amor
há pelos caminhos da existência
muito mais do que a simples bifurcação...

As pessoas comuns, para quem se diz
acima do bem e do mal,
são como a uva, que o pisar
dá a quem não tem pesar
o doce sabor da degustação...

Para Deus, em sua cinematográfica onisciência,
as pessoas comuns são como os pingos da chuva,
descascados sobre a terra ressequida;
na solitária esperança de que aqueles círculos concêntricos
repliquem nas poças miúdas o bem sobre o mal,
independente do local e da ocasião...

Na multiplicidade dos sonhos e das vidas
mínimas, múltiplas e vulgares,
incomum é acreditar que noutros lugares
tanto a chuva como a uva
tenham em comum apenas a terminação...

José Antonio Klaes Roig

Observação 1: Poesia feita em 09/03/2009, e protegida pela lei de direitos autorais. Sua reprodução é proibida sem a autorização prévia do autor.
Observação 2: A imagem acima, colagem de minha autoria (feita em 2008), a partir de recortes de revistas antigas, usando tesoura e cola bastão, e digitalizando o resultado para o computador. Por fim, utilizando o efeito "pintura a óleo", do software MGI Photosuite, do scanner TCE S-450.

05/03/2009

A vida em tecnicolor


Life in Technicolor II é título de canção da banda Coldplay. Segundo a Wikipédia, Technicolor foi “uma marca norte-americana pertencente à Technicolor Motion Picture Corporation em que o processo consistia na coloração dos filmes. Foi utilizado até a década de 60. A Technicolor era a segunda maior empresa de coloração cinematrográfica após a britânica Kinemacolor e a mais utilizada pelos estúdios de Hollywood de 1922 a 1952.”
No passado, filmes nesse sistema marcaram a modernização do cinema, com suas cores vivas. Recentemente, filmes clássicos em preto e branco passaram por um processo semelhante de colorização computadorizada.
Erico Veríssimo, em sua autobiografia Solo de Clarineta (1973), escreveu que sua educação fora cinematográfica, confessando que sua memória incorporara imagens dos filmes que assistira na juventude. Não raras vezes, comparava pessoas com personagens de livros e filmes e vice-versa. Erico, que fora acusado por alguns críticos de ser um autor com estilo cinematográfico, quando isso era depreciativo, confessou que anos depois tal estilo tornou-se valorativo para outros.
Minha educação foi televisiva e a de meu filho é “internética”. Como especialista em tecnologia educacional, paradoxalmente, não me agrada certas modernidades, quando envernizam algo velho com segundas intenções, como fazem magistralmente certos políticos, alguns totalmente TechniCollor. Tipo “efeito Madonna”, de mudar cabelos, trajes e estilo para parecer atual. Prefiro a naturalidade das coisas e das pessoas. Um filme como Tempos Modernos, de Charles Chaplin, filmado quando o cinema já era falado - mas que em grande parte dele o criador de Carlitos preferiu continuar mudo - pela grandeza e força de imagens e crítica social, mesmo em P & B, é sem igual. “No preto e branco”, dizia minha avó, é que se percebe as “nuances e tonalidades” do mundo.
O próprio Chaplin, noutro filme em P & B, O Grande Ditador (EUA, 1940), traz fragmento de O Ùltimo Discurso, terrivelmente atual: “(...) Criamos a época da velocidade, mas nos sentimos enclausurados dentro dela. A máquina, que produz abundância, tem-nos deixado em penúria. Nossos conhecimentos fizeram-nos céticos; nossa inteligência, empedernidos e cruéis. Pensamos em demasia e sentimos muito pouco. Mais do que máquinas, precisamos de humanidade. Mais do que inteligência, precisamos de afeição e doçura. Sem essas virtudes, a vida será de violência, e tudo será perdido.”
A vida em tecnicolor, transposta para a atualidade, mostra que a mídia às vezes carrega nas cores: desenhos (des)animados, seriados, telenovelas, telejornais, propaganda comercial e política. Todos querem “dourar a pílula” - outra expressão antiquada e moderna ao mesmo tempo, dependendo do ponto de vista. Afinal, temos celebridades que são célebres justamente e tão-somente por serem famosas. Nada produzem além de escândalos, fofocas e coisas do gênero. Produção de baixo-relevo com divulgação de alto-relevo.
Essa vida em tecnicolor parece com a “carnavalização”, não no sentido teórico-literário, mas no mercadológico, de dar publicidade extremada ao acessório ao invés do principal. E o futebol é o ambiente natural para isso, quando se trata da vida “colorizada” de jogadores tidos como fenomenais. Kaká dá espetáculo dentro de campo, ganha títulos, mas fora dele tem vida reservada, familiar, religiosa, que nenhum paparazzi consegue flagrar. Os outros dão mais “show” fora de campo, com seus dribles à direção de seus clubes, na boemia, em supostos escândalos, etc.
Nessa vida em tecnicolor, entre o real e o artificial, Kaká lembra-me Chaplin; os demais, parecidos estão com os diretores que abusam dos efeitos especiais para compensar a pouca inspiração.

Observação 1: Imagem acima, extraída da internet, do endereço abaixo
http://www.tlinn.com/images/travel/north_america/ca/san_francisco/2007-07/SF2007-07.htm
Observação 2: Artigo publicado no Jornal Agora (www.jornalagora.com.br) de Rio Grande-RS - Brasil, em 12/3/2009, conforme endereço abaixo
http://www.jornalagora.com.br/site/index.php?caderno=27¬icia=63118

01/03/2009

A Herança de um Poeta Pobre


O bombardeio diário de más notícias faz-nos esquecer que o mundo é fruto do que plantamos. Se cada vez mais somos consumistas e individualistas - querendo furar fila de banco e etc., pois nossa pressa é maior que a dos demais e nosso tempo sempre curto, embora todos os relógios do mundo continuem a girar na mesma velocidade -, ainda temos tempo para retroceder a fita dos bons momentos, que não voltam mais.
É, o poeta tinha razão: o tempo não pára! Outro poeta, William Shakespeare - o maior de todos os tempos, abaixo apenas do Menino de Nazaré, que falava por parábolas, quase poemas, em sermões que arrastavam multidões, sedentas de seu saber -, disse certa vez: “Alguns vencem por seus crimes, outros são derrotados por suas virtudes”.
Ao saber do falecimento de Írio Rodrigues da Silveira – que por duas décadas viveu em São José do Norte -, mais que um poeta, um amigo, senti-me um pouco órfão, como se alguém da família partisse sem avisar. A Poesia perdera um de seus mais dedicados amantes. A praça Xavier Ferreira, em Rio Grande, perdera seu filho mais ilustre. Os pássaros não terão mais aquele anjo em forma de gente, para roubar-lhes sem ver uma pena, para um belo verso escrever. As próprias horas se arrastarão pelas ruas onde Írio costumava perambular, com sua bengala - herança de um atropelamento, ano passado, que o deixara mais debilitado. Vivia de favores: peças emprestadas para morar; refeições doadas por admiradores; material perdido em mudanças e outros prejuízos. Apesar de desprovido de recursos financeiros, jamais foi uma pessoa “pobre de espírito”. Viveu intensamente. Publicou três livros, se não me falha a memória: dois artesanais, e um com apoio da Prefeitura do Rio Grande. Seguidamente o encontrava pelo Calçadão, e sempre com um sorriso farto e um olhar penetrante, o Poeta Pobre, falava-me de projetos e sonhos. Combinara de um dia ir à sua moradia para entrevistá-lo. O tempo e o destino não permitiram.
Tenho quase certeza que Írio não era desse mundo. Quem sabe um anjo desses de bronze, em alguma praça, que observa tudo calado, e que um dia apaixonara-se por uma bela e jovem moça, chamada Poesia, que perambulava sozinha por entre as árvores, e que aquela visão fizera o anjo quebrar o encanto de sua prisão, saindo pelo mundo afora em busca da Amada em cada bosque ou praça, escrevendo belas declarações de amor à Vida. O anjo negro pertencia ao mundo das letras. Sua passagem por nossa terra era transitória. Ele sempre soube, nós apenas desconfiávamos. Desconfiamos também de tantas coisas – um olhar de carinho na rua, e ao invés de retribuirmos, com medo, dobramos à primeira esquina, e perdemos irremediavelmente a chance de conhecermos o grande Amor. Assim fazemos com tudo e todos ao nosso redor, e com receio de viver, apenas vegetamos, escravos do relógio: hora pra isso e aquilo, até recomeçar essa jornada repetitiva em torno do próprio umbigo.
O poeta não morreu. Seus escritos lhe darão a imortalidade não do bronze, mas do reconhecimento de que uma vida, ainda que sofrida, cheia de privações e desilusões, não fora em vão. Alguns poderão dizer: Poesia não serve para nada, não paga o aluguel nem a conta do supermercado! Exato. Poesia jamais será ração da cesta básica, e podemos sobreviver sem ela. Mas num mundo tão prisioneiro do materialismo, sempre é bom saber que a Poesia Livre, para uns, pode ser mais que o pão nosso de cada dia... Pode até humildemente ser comparada, quando bem escrita, a pequena oração, que recitamos em silêncio, com a comovida Esperança em dias melhores, nas escuras e longas horas de aflição.
Eis a herança que o Poeta Pobre nos legou: sejamos menos bronze e mais humanos! Enquanto há tempo, digamos às pessoas que nos cercam, o quanto às amamos e o quanto nos são importantes; já que depois que se vão, de nada adianta escrever poemas ao vento...
Em julho comemora-se o centenário de nascimento de Mario Quintana, o Poeta Maior do RS. Írio, o maior poeta rio-grandino, partiu antes da hora para abraçar o homem do sapato florido n’algum jardim do céu. Parafraseando Quintana: “As pessoas não morrem; mudam apenas de casa e se esquecem de nos avisar”.

José Antonio Klaes Roig

Observação 1: Texto em homenagem ao colega e amigo Írio Rodrigues, o Poeta Pobre, na página da Academia Rio-Grandina de Letras, suplemento O Peixeiro, do Jornal Agora, de Rio Grande - RS - Brasil, publicado em 27/6/2006, dias após seu falecimento.
Observação 2: Para saber mais sobre o motivo dessa recuperação de texto, visitar o blog Letra Viva do Roig.
Observação 3: Imagem acima, de Írio Rodrigues, escaneada da capa de seu livro de poemas.

26/02/2009

Além da Imaginação


No retorno às aulas, lembrei-me de antigo seriado de TV, chamado Além da Imaginação (The Twilight Zone). Num episódio, o protagonista acorda e segue sua rotina, até que ao falar com a esposa e filhos não entende nada do que eles falam, e vice-versa (qualquer relação com fatos e pessoas, como pais e filhos de hoje, que falam línguas diferentes, pode ser mera coincidência, ou não...).
O sujeito vai para o trabalho e lá também ocorre a mesma confusão. Parece falar língua estrangeira desconhecida, tendo sobre os demais a mesma impressão. No dia seguinte, ao acordar, a incômoda situação se repete, até que cansado de tentar se fazer entender - já que tudo indicava que só ele é que não conseguia se comunicar, e os demais se entendiam normalmente -; emocionado, vai ao quarto do filho menor, e vendo-o dormir tranqüilo, pega espécie de cartilha, com caracteres estranhos sob as figuras de animais e coisas, e tenta aprender o novo idioma para poder se comunicar com o mundo que o rodeia.
Essa história é a grande metáfora da sociedade, cada vez mais individualista, egocentrista, consumista e todos os "istas" que sobraram nessa crise mundial, que mais do que econômica e financeira, é ética e moral. Os economistas, para justificar o quase injustificável, apelam para outra língua - o economês - que só os iniciados entendem.
Entendo também a história como a metáfora da Tecnologia Educacional, em que para os que não se atualizam, a informática e a tecnologia em geral resume-se apenas a apertar botões, como foi com a própria televisão, quando passou a ser utilizada no ambiente escolar. Hoje, o “datashow” (deus ex machina) passou a ser o palco virtual e as apresentações de slides, a vedete, ainda que muitas vezes seja para reproduzir a opinião de terceiros e não produzir conteúdo próprio.
Muitos professores, diante do computador, agem como o protagonista da história. Nem todos pegam a "cartilha" do filho ou conversam com os alunos para entender aquilo que consideram “coisa doutro mundo", incompreensível, complexa e indecifrável. Para os que se aventuram - e cada vez mais professores vão descobrindo esse mundo "Além da sua imaginação" -, gratas surpresas encontram, através da internet e do laboratório de informática, usando blogs, orkut, msn, wiki (coisas desconhecidas para muitos!) para executar projetos de ensino e não apenas de aprendizagem. Tudo depende desse "sentar" ao lado e tentar se incorporar ao mundo de seus filhos e alunado. Não é tarefa fácil; depende de tempo, incentivo e planejamento curricular, mas os alunos já estão nessa nova dimensão há tempos e são multifuncionais. A multifuncionalidade dos educadores está mais na questão de fazer múltiplas tarefas além de suas funções (assistentes sociais, enfermeiros, pais substitutos, orientadores, conselheiros, etc.).
Hoje, qualquer criança aprende com naturalidade a usar equipamentos eletroeletrônicos, pois não tem medo de apertar botões. A geração videogame não teve a criação cerceadora que seus pais e avós: "Não mexe nisso, que estraga!" As crianças são alfabetizadas em imagens e símbolos e aprendem por experiência e erro de forma autodidata, compartilhando com seus pares o que descobrem. A aprendizagem é algo que não tem idade nem lugar.
Crianças, através dos games, aprendem a jogar versões em japonês, coreano, inglês, quando não dominam esses idiomas (ou sequer estão alfabetizadas), tudo por intuição-experimentação-erro-descoberta. Algo inimaginável. Sem a tentativa de compreender a língua dos outros, pareceremos eternamente como o protagonista do seriado, até que, como ele, resolvamos tardiamente aderir a "conversão" ao novo idioma. Os gestores escolares e públicos, precisam também sentar ao lado do professor para compreender suas necessidades, que são muitas e estão além da imaginação daqueles que estão noutra dimensão.

José Antonio Klaes Roig, educador e especialista em Tecnologia Educacional.

Observação 1: Imagem acima, extraída da internet, do endereço abaixo
http://alemdaimaginacaobrasil.blogspot.com/
Observação 2: Artigo publicado no Jornal Agora (www.jornalagora.com.br), de Rio Grande - RS - Brasil, em 03/03/2009, conforme endereço abaixo
http://www.jornalagora.com.br/site/index.php?caderno=27¬icia=62772

19/02/2009

Dízima periódica


Faz de conta que tudo é matematicamente real
E que no final de todas as nossas contas
Numa dessas casas depois da vírgula
Nesse mundo mágico e espiral
Contigo ainda hei de morar...

Equações sem nexo, amor sem sexo
Não sei dividir, só multiplicar
A ordem dos fatores nos impede de sonhar
A ordem dos valores me impede de te amar

No balanço final, entre perdas e danos
Quem mais perdeu fui eu - danou-se o amor
E o resto é sempre uma dízima periódica, melódica
Será que ainda sei a tabuada te cantar?

José Antonio Klaes Roig

Observação 1: Poesia feita em 29/03/1989 (quase 20 anos atrás), protegida pela lei de direitos autorais. Sua reprodução é proibida sem a autorização prévia do autor.
Observação 2: A imagem acima, colagem de minha autoria (feita cerca de 10 anos atrás), a partir de recortes de revistas antigas, usando tesoura e cola bastão, e digitalizando o resultado para o computador.

14/02/2009

Pietá


A voz na boca ancorada,
Os lábios às velas a assoprar.
Velas dos barcos ancorados no porto,
Velas das almas nos velórios a embalar.
Mil e uma estrelas, ontem à noite, no céu eu contei,
Antes de contigo ir sonhar...

Uma por uma as nuvens de giz,
Como num quadro negro imenso, quiseram apagar...
A pagar mil e uma promessas (como um sonho infeliz)
Estão os anjos sem teto e sem par (vivendo feito bicho),
Sobrevivendo dos restos do lixo...
Dos pobres de espírito que sempre têm algo mais,
Mas com ninguém (o pão!) repartem, como ensinou O Cristo...
Ninguém mais se apieda dos meninos sem lar...

A piedade é uma bruxa louca
Escondida num alçapão escuro e frio,
Cega, surda e muda
Para as coisas que estão vagando pelas ruas,
Amontoando-se junto aos sacos pretos de lixo
Querendo ao mesmo tempo nos assustar e nos devorar.,
Tentando a todo custo sua larga fatia abocanhar...

Quando o vento forte bate às portas fechadas,
As cortinas nas janelas das casas mal-assombradas
Parecem fantasmas querendo voar.
Ar... Ar... Ar... Quero poder respirar
O tempo e o vento, o amor e a paixão,
Que numa velha ciranda estão a me rodear...
Ar... Ar... Ar... Deixem-me, por favor, voar...
Às vezes não sei se sou anjo ou corvo,
Tenho fome de justiça, além de pão e manteiga,
Além de leite, chocolate e liberdade... para amar
Ao meu semelhante, como se fosse um irmão.

Ontem vi uma mãe, seus três filhos e um cachorro vadio,
Revirando com fome e medo aos sacos de lixo,
Provando dos restos de mim
Como se fosse aquilo tudo um maravilhoso manjar.
A Fome é tirana com quem não tem futuro.
O presente para àqueles neste Natal escuro
De novo não virá; assim como nos demais...

Aqui na rua fria, além de mim e da Piedade
Pousa um Corvo a querer se alimentar
Das sombras e das sobras...
Dos restos daqueles pobres mortais...
Como seria bom se todos fôssemos iguais
Uns aos outros. Não custa nada sonhar!
Difícil mesmo é crer nisso e depois acordar,
Vendo a nossa volta cada vez mais corvos,
Enquanto a Piedade, sem dentes, sabe
Que a vida é rapa/dura demais, só lhe restando chupar...
A bala amarga, que carrega o tambor
Do “três-oitão” do exterminador do futuro,
Prestes sua fúria e fome de sangue
Sobre os fracos e oprimidos descarregar...

A voz na boca ancorada,
Os lábios às velas a assoprar.
Os corvos voando em círculos,
Nos campos de trigo surgem também misteriosos círculos.
Em círculos e “circos” passamos a vida
Neste carrossel de emoções...
Qual de nós irá primeiro deixar de rodar?

José Antonio Klaes Roig

Observação 1: Poesia feita em 22/09/2003, protegida pela lei de direitos autorais. Sua reprodução é proibida sem a autorização prévia do autor.
Observação 2: A imagem acima, colagem de minha autoria (feita cerca de 10 anos atrás), a partir de recortes de revistas antigas, usando tesoura e cola bastão, e digitalizando o resultado para o computador. Depois usando o recurso "pintura a óleo" do programa MGI Photosuite, do scanner TCE S-450.
Observação 3: Pietá, Piedade em italiano; referência à obra-prima de Michelangelo Buonarotti, que esculpiu a Virgem Maria segurando O corpo morto de seu filho Jesus Cristo. Poesia inspirada também no poema O Corvo do poeta e escritor norte-americano Edgar Allan Poe.

07/02/2009

O mundo cão e a filosofia do cotidiano


Entrevista de capitão da BM, sobre procedimentos a serem adotados quando de ataque de cão feroz, como o que dilacerou parte da orelha de criança que passava perto de portão de grades, surpreendeu a todos, diante de frase filosoficamente atual: "Cachorro deve ser tratado como cachorro".
Parece o óbvio, mas diante dos valores invertidos na atualidade, tal conselho, de quem vivencia essa realidade, merece reflexão sobre o "Mundo Cão" em que vivemos.
De fato, muitos donos de cães tratam o animal como se fosse um ser humano, uma "pessoa" da família - o que não surpreende, pois até ex-ministro disse a repórteres que cão também é gente, justificando mordomias que o seu possuía; sem falar de recente denúncia sobre gato no estado de MS que receberia auxílio do bolsa-família. Seria o Gato-de-Botas?
Tem quem dê mais atenção aos animais do que aos filhos; uns preferem ter bichos do que adotar crianças. Cães e gatos de alguns têm tratamento VIP, que a maioria da humana população brasileira não dispõe.
Cabe lembrar àqueles formandos do Paraná, que invadiram hospital para trote de formatura, muitos portando garrafas de bebida, soltando foguetes pelos corredores e pondo em pânico os pacientes, que gente humilde não é bicho, ainda que viva como tal. E mais recentemente, aos "bixos" (aprovados no vestibular de Direito!) de universidade paulista, que agrediram morador de rua indefeso, raspando seu cabelo e sobrancelhas, que seu comportamento é inaceitável para quem pretende ser futuro "defensor" da lei. Que exemplo darão os tais médicos que levam pânico a hospitais e futuros advogados que atacam indefesos?
Há, provavelmente, nos dois casos o preconceito e a ingestão de bebida alcoólica ou algo mais. Tais substâncias podem aflorar o preconceito incubado que jovens inconseqüentes têm contra pessoas que vivem como bicho; como se até os animais merecessem receber tratamento desumano.
Penso que bicho deveria ter nome de bicho e não de gente. Não ouço mais donos chamarem seus animais de Rex, Mimi, Xuxu, etc. Muitos chamam por nomes pessoais. E se gente deve ser tratada como gente, um conselho aos pais: "Tratem suas crianças como crianças e não como adultos em miniatura!" É complexo, pois crianças e jovens querem ser cada vez mais independentes (menos financeiramente). Escolhem roupas, materiais escolares, brinquedos, tudo... Se por um lado é interessante o exercício de escolha; por outro, escolhem apenas produtos de seus ídolos, que só por causa daquela figura (marca, grife), custam o dobro do produto similar.
Essa inversão de valores não é recente. O famoso jurista Sobral Pinto, durante o Estado Novo, para defender preso político das bárbaras torturas nos porões da ditadura, alegou em sua defesa a Lei de Proteção aos Animais, já que a Lei dos Homens não o amparava. Algo surpreendente e comovente do ponto de vista jurídico, histórico e humanista.
Então, que os bichos em geral sejam tratados como tais, e que as pessoas ajam como humanos, embora saibamos de antemão que se a lei é igual para todos, no papel; no mundo real há sensível distorção, por conta de uma "ética corporativista" que faz alguns parecem ser mais iguais do que outros. E que fique claro aos desavisados que não tenho nada contra animais de verdade, que são boa companhia aos seres humanos, desde que tratados tão-somente como bichos de estimação e não como gente como a gente! Atualmente, por falta de tempo e de espaço, o único bicho que estimo é o "mouse" de meu computador.

José Antonio Klaes Roig

Observação 1: Imagem acima, de minha autoria, colagem feita (a cerca de 08 anos atrás) a partir de recortes de revistas antigas, usando apenas tesoura e cola bastão e digitalizando o resultado para o computador.
Observação 2: BM é a abreviatura para Brigada Militar, como é chamada a polícia militar no Rio Grande do Sul - Brasil.
Observação 3: Artigo de opinião, de minha opinião, publicado no Jornal Agora (www.jornalagora.com.br), de Rio Grande - RS - Brasil, em 09/02/2009, conforme link abaixo:
O mundo cão e a filosofia do cotidiano
http://www.jornalagora.com.br/site/index.php?caderno=27¬icia=61928

01/02/2009

GPS - Global Poets Society (novo blog)


Caros amigos e visitantes do ControlVerso, informo que depois dos projetos de literatura colaborativa RPG - Role Poetic Games (Jogos Poticos Virtuais) e R.E.M. - Rapid Eye Movement (Rápido Movimento do Olhar), tenho um novo blog coletivo, chamado GPS - Global Poets Society (Sociedade dos Poetas Globais), que tem por objetivo, como no sistema de localização por satélite, reunir poetas e escritores de língua portuguesa, espalhados pelo mundo afora, seja no real ou no virtual, para compartilhar ideias, projetos e impressões literárias, além de divulgação de suas próprias obras e conhecimento mútuo...
Assim como nos demais blogs, a ideia surgiu de conversas com amigos, via MSN...
O RPG, com a Suellen Rubira e o Leandro Kerr.
O R.E.M., com a Elis Zampieri.
O GPS, com a Ana Matias, também colega de RPG.

Enquanto os dois primeiros projetos são restritos aos seus integrantes, o GPS, pela sua própria formatação e objetivo, está aberto a TODOS que queiram mostrar sua visão particular, de forma colaborativa, em uma língua universal, ou que se propõe a se universalizar... A língua portuguesa, adotada como oficial em 8 países e por cerca de 240 milhões de pessoas, e que tem suas variações linguísticas, expressões idiomáticas, usos e costumes diferenciados, etc. No GPS, pretende-se que cada um mostre um pouco de seu local, onde vive ou mora, ilustrando com fotografias, desenhos, imagens, vídeos e o que mais interessar, num intercâmbio artístico, histórico, literário e cultural...
Depois que eu, José Roig, editor do ControlVerso e Ana Matias, editora do A Solidão Nunca está Sozinha, criamos o blog, recebemos algumas visitas, mas recentemente uma delas tornou-se a primeira adesão, do poeta Jaime A. (pseudônimo), que vive em Lisboa, Portugal, e é editor do blog Sopro divino.
Que outros escritores e poetas que se dedicam a escrever em língua portuguesa, mundo afora, se interessados, visitem e deixem lá seu recado (e suas "coordenadas geográficas" e literárias), para que possamos enviar convite para co-autoria no blog GPS (é preciso o envio de um endereço eletrônico para que isso ocorra).

Observação: Imagem acima, banner do GPS - Global Poets Society / Sociedade dos Poetas Globais (ou poetas do mundo que escrevam em português).

22/01/2009

Memória Palimpsesta


Nos retalhos do tempo,
minha memória jaz sempre numa colcha,
ricamente bordada com o meu esquecimento,
cortada e costurada pela saudade, que vem e vai.
Quanto mais passa a idade e cresce a cidade,
menos esta se parece com o que vejo.
E o que vejo, menos ainda, com o que eu esqueço...
Menos eu me pareço com o que percebo;
e o que percebo, menos ainda, com o que desconheço.
Não sou mais eu, desde que nasci, confesso.

Lá dentro da nave-mãe,
eu era um solitário acompanhado;
aqui fora, a memória sempre me lembra
que cada dia é um breve renascimento,
todo dormir é um pequeno morrer...
Todo nascer parece com um diminuto naufrágio.

Se cada dia que cresce é feito de breves instantes,
mínimos, múltiplos e comuns,
nas estantes da alma, toda calma
convive conosco e com o padecimento
de nem sempre conseguirmos, em tempo,
seguir o fio da meada soprada pelo vento...
Tampouco rememorar com fidelidade no que cremos.
Por isso, escrevemos e descrevemos para os outros,
histórias que imaginamos a partir de apagadas vivências.
Escrevo para me inventar, diariamente,
invento-me para reviver... constantemente...

Viver e rememorar são coisas palimpsestas.
A cada dia somos o Outro,
e o Outro nunca é de fato nós mesmos!
Insisto em me ferir com meus segredos,
com a lâmina de barbear, invado de vez o espelho;
com o novelo de meus pensamentos desenrolados,
há sempre um labirinto em construção...
E nele, muitas passagens secretas.

Um talho na mata, outro na mão,
um entalhe na madeira, outro no coração,
todo amor é sempre feito de retalhos
de pano velho e novas recordações;
um segredo em pedaços, repartido pelo chão...
Retalhos de vida entre cacos de vidro,
um navio no mosaico de espelhos, ora do céu, ora do mar.
De nada adiante querer apagar para reescrever
na memória palimpsesta novas emoções...
A palavra que ficará para a posteridade,
sobrevivendo até mesmo à ruína das cidades,
é aquela cravada na árvore dos dias,
gravada fundo na alma,
mais do que no muro das lamentações...

José Antonio Klaes Roig

Observação 1: Poesia feita em 22/01/2009, protegida pela lei de direitos autorais. Sua reprodução é proibida sem a autorização prévia do autor.
Observação 2: A imagem acima, colagem digital, de minha autoria, usando o paint brush.
Observação 3: Um palimpsesto é uma página manuscrita, pergaminho ou livro cujo conteúdo foi apagado (mediante lavagem ou raspagem) e escrito novamente, normalmente nas linhas intermediárias ao primeiro texto ou em sentido transversal.
O termo deriva do grego antigo παλίμψηστος, ou seja, "riscar de novo" (πάλιν, "de novo" e ψάω, "riscar").
Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Palimpsesto

19/01/2009

A caixa-preta


Um estrondo sobrevoou a casa,
dobrando as árvores com seu vácuo e vendaval...
No quarto dos fundos, prisioneiro de seus medos,
o avô moribundo e desenganado pelo médico,
partia feliz, estampando um estranho sorriso nos lábios,
enquanto seu olhar vazio dizia justo o contrário,
voando pelo céu de brigadeiro lá fora...
O neto correu em direção do quarto minguante,
e o corredor imenso da infância
parecia não ter mais fim...
Quanto mais corria menos saía do chão...
Quando, da sala para o quarto,
o menino também conseguiu voar,
em cima da cama havia apenas um corpo,
e, ao lado deste, uma misteriosa caixa-preta
à espera de uma agridoce revelação.
Depois de muito custo o lacre se abriu,
e dentro da caixa não havia música, apenas
um álbum de fotografias amareladas pelo Tempo,
e uma miniatura de um avião bimotor...
Nunca neto e avô estiveram tão juntos,
ainda que distantes, cada qual em sua aérea solidão...
O menino viajou para o País dos Sonhos e logo voltou;
o velho, para a Terra do Sono e de lá nunca mais regressou...
Mas a caixa preta continuou na família, como relíquia,
guardada no armário do sótão da casa que desabou,
como passagem sem volta para a quinta dimensão.
A caixa-preta do menino branco como a neve continuou
armazenando um mundo inteiro de fantasias em seu interior...
Só desconhece nessa vida o verdadeiro amor,
quem se queixa da companhia, sem a devida autocrítica,
quem se deixa sempre aprisionar pela ilusória paixão...

José Antonio Klaes Roig

Observação 1: Poesia feita em 19/01/2009, protegida pela lei de direitos autorais. Sua reprodução é proibida sem a autorização prévia do autor.
Observação 2: A imagem acima, colagem de minha autoria, feita em 2008, a partir de recortes de revistas, usando tesoura a cola bastão e escaneando o resultado para o microcomputador.

12/01/2009

Rápido Movimento do Olhar - o blog


Visitem novo projeto literário e colaborativo, chamado R.E.M. - Rapid Eye Movement ou Rápido Movimento do Olhar, em parceria com a colega e amiga Elis Zampieri, que trata de breves poemas e minicontos.

Endereço:
http://rapido-olhar.blogspot.com

10/01/2009

O Monstro que habita cada um de nós


“Como espécie, o homem tem procurado aniquilar os ratos da face da Terra, mas jamais conseguiu. Da mesma forma, fomos subjugados, torturados, conquistados, mas ninguém conseguiu nos aniquilar. Essa tem sido à força da nossa civilização. Mas como vivemos? Como ratos”.
VISHWA NATH, jornalista indiano.

Kruel era um monstro, mas a despeito de outros tantos que vagam por aí (escondidos nas sombras, nos matos), este vivia entre os seres humanos disfarçado de gente comum, como se fosse um de nós, sem ninguém jamais perceber.
Era tão astuto que chegou até mesmo a possuir carteira de identidade, de habilitação, profissional, porte de arma, e outros documentos que qualquer cidadão comum pode obter. Conseguiu integrar-se à civilização humana, mais rápido que qualquer um dos seres humanos. Tudo por causa (ou seria culpa?) de seu currículo invejável nas artes do mal.
Entretanto ele era realmente um monstro violento, sanguinário, homicida, um predador.
Somente quando descia aos calabouços do Poder Absoluto, que prendia, arrebentava, seqüestrava e matava sem dar explicações a ninguém, que ele se transfigurava: os olhos arregalavam-se, a mão ficava pesada e criava garras, o olhar frio congelava e sua cara de mal se desmascarava por completo para as pobres das vítimas aprisionadas e indefesas naqueles matadouros de gente camuflados de residência normal.
Naquele instante, ele e outros mais que depois começaram a sair de seus esconderijos — os esgotos das cidades —, mostravam sua verdadeira face de ratos imensos, cinzentos, olhos vermelhos esbugalhados, como se estivessem drogados... E o pior de tudo, parece que gostavam muito do que faziam a suas presas indefesas, que por eles tinham seus corpos dilacerados. Metamorfoseavam-se, ora em gente, ora em ratos, tal qual num conto de Kafka, só que bem real.
Os donos do poder selecionavam estes monstros vindos de toda parte, dando-lhes aulas de como torturar sem matar (apesar de que isso na maioria das vezes era impossível de controlar; matar sem razão fazia parte de seu instinto assassino de monstro cruel), deixando a cargo deles o “SS”, também conhecido pela alcunha de serviço (secreto...) sujo — afinal, a maioria daqueles monstros tinha vindo dos esgotos fétidos —, que os homens de bem (e quem seriam eles?), não queriam fazer. Que nem Pilatos, os humanos, lavaram as mãos na água sanguinolenta da repressão praticada pelos monstros, com seu aval. Embora se fizessem de cegos, surdos e mudos aos gritos de dor daqueles que eram trucidados monstruosamente nas prisões, aquilo tudo realmente existiu. Não fora inventado por ninguém. Infelizmente, o que se passou naqueles porões não era nenhum conto de terror, fruto da imaginação prodigiosa de um Edgar Allan Poe. Quem dera tivesse sido apenas realidade virtual.
Eles, os monstros, andavam em bando, feito ratazanas, disfarçados de agentes especiais, óculos escuros, de carro oficial, viatura ou camburão, procurando, rastreando, prendendo gente que era anunciada nos órgão de imprensa como “monstros”, para depois, eles, feito caçadores, prender, torturar, trucidar, fuzilar suas presas sem perdão. Os monstros matavam gente, mas para o grande público, era justamente o contrário que acontecia. Chegaram até fuzilar, torturar milhares em estádios de futebol. Espalharam-se por toda a latinidade, ocupando cargos em governos que chegaram ao poder pela força das armas. As ratoeiras foram banidas da face da Terra.
Lá nos porões sinistros do poder central, colocavam os prisioneiros sobreviventes ao cerco, emboscada, tiroteio, em paus suspensos, chamados pau-de-arara, dando-lhes choques elétricos por todo corpo, principalmente nos órgãos genitais, surrando e fazendo outras “monstruosidades”, que, é claro, só monstros como eles sabem e conseguem fazer. E nós, seres humanos comuns nem podemos imaginar. Tudo para tirar uma confissão de um crime, que aqueles, na maioria das vezes, não haviam cometido, foram confundidos com alguém parecido, ou que trocaram apenas duas palavras na rua com outro suspeito, para eles um desconhecido, passando imediatamente a serem seguidos, bisbilhotados, interceptada sua correspondência, “grampeado” seu telefone, devassada sua casa em sua ausência; enfim, um amontoado de barbaridades, que só uma terra sem lei e sem dono pode admitir. Nem Stephen King e suas histórias de terror puderam superar o horror daqueles tempos não tão distantes assim...
Que mundo estranho aquele, em que ratos de verdade eram tidos por muitos como homens e os verdadeiros homens - muitos deles jovens idealistas que largaram a família, os amigos e o trabalho - eram perseguidos, torturados e exterminados como ratos — cobaias num laboratório de filme de terror. Quem dera tudo não tivesse passado de um filme, de uma virtualidade, mas...
Ao final de um dia de trabalho duro e “desumano”, em todos os sentidos, os monstros, inclusive Kruel (o líder dos ratos em forma de gente) se travestiam de novo em seres humanos e voltavam para suas casas, para ter uma vida de gente normal, com a consciência (e eles têm uma?) do dever cumprido, mesmo que a qualquer preço. Uma geração inteira pagou com a vida um preço muito alto por seus ideais. Muitos deles distorcidos eu sei, mas a maioria lutando contra moinhos de vento bem reais.
Aos monstros não era imposto limites. Chegavam a casar com mulheres humanas e ter filhos normais com elas, e o que é mais incrível: ficavam todos “derretidos”, que nem manteiga fora da geladeira, ao verem o filho pequeno correr em sua direção e chamá-los de “Papai!”.
Graças a Deus, parece que os monstros foram se integrando à vida humana, e deixando aos poucos seus hábitos cruéis e desumanos, atrás da cortina da História, debaixo do tapete empoeirado do Tempo. Alguns se regeneram por completo (será?); outros morreram, viajaram, sumiram, desapareceram (queima de arquivo!) do mapa. Hoje a História Oficial, às vezes, parece virtual.
Os filhos dos monstros, para o nosso bem e de nossos filhos e netos, puxaram às mães: são seres humanos como nós, todos normais... Espero! Isso só futuro e os avanços da Ciência poderão comprovar. O dia que puderem decodificar o código genético dos seres vivos com 100% de certeza esta dúvida poderá ser esclarecida. Até lá resta-nos confiar desconfiando e deixando sempre armada uma ratoeira aos pés de nossa cama ao deitar.
Agora, os monstros que aparecem mais e mais a cada dia, são deformações genéticas de uma sociedade desumana e cruel — criados por desgovernos seguidos —, que drogados ou com desvio de personalidade atacam idosos, crianças e mulheres indefesas, sentindo nisso um enorme prazer. São monstros também, mas fáceis de ser capturados, pois não tem todo um aparato para encobrir, disfarçar, apagar suas pegadas monstruosas pelo chão. Não se escondem no submundo do poder. Estão incubados às vezes em um aparentemente pacato cidadão que de repente põe-se a matar por matar, tal qual um moto-boy, um enfermeiro, um pescador.
Na verdade, estes monstros que viveram entre nós, como se um de nós o fossem, eram apenas parasitas de um hospedeiro bem maior e mais tirano. Após, terminado o serviço para que foram chamados, voltaram para os esgotos de onde nunca deveriam ter saído, e que nós, seres humanos de verdade, esperamos que de lá nunca mais voltem. Apesar disso, de vez em quando pipoca uma notícia aqui e ali de abuso de autoridade nas delegacias, nos presídios, nas instituições de “amparo” ao menor-infrator. Monstros que criam monstros. Monstros que matam monstros. Monstros que amam monstros. Monstros hospedeiros, monstros parasitas. Monstros reais nas ruas, monstros virtuais na televisão.
Depois eclodem rebeliões violentas que nem a do Carandirú, e as autoridades, em seus castelos virtuais, ficam a culpar A, B e C pelo descaso oficial. Para uns os monstros atrás das grades devem ser exterminados pelos monstros com aparato militar. Para muitos o monstro é o vizinho alcoviteiro, a mulher geniosa, a mãe repressora, a sogra intrometida, o patrão ditador. Acreditar em quem? Confiar em quê? Há quem pedir socorro? Mas que bobagem! Para os céticos, que tudo sabem e nunca erram, tudo isso não passa de realidade virtual.

José Antonio Klaes Roig

Observação 1: Acima, conto de minha autoria, escrito em 20/02/2005, e integrante do livro Realidade Virtual (2004).
Observação 2: Publicado em função do conflito em Gaza, para uma reflexão sobre os instintos primários despertados pela guerra.
Observação 3: Imagem acima, colagem de minha autoria, feita há cerca de mais de 10 anos, a partir de recortes de revistas antigas, usando apenas tesoura e cola bastão e digitalizando o resultando.

08/01/2009

Trem da Vida


O filme Trem da Vida, de Radu Mihaileanu, é daqueles momentos mágicos do cinema: vencedor de vários prêmios, mescla a fantasia com a dura realidade, trazendo nas entrelinhas mensagem transcendental.
Tudo começa quando Schlomo, o bobo da pequena aldeia judia no Leste Europeu, traz a terrível notícia de que os nazistas estão chegando para deportarem todos os judeus pr’algum famigerado campo de concentração. Todos suspeitam qual é o destino reservado, caso sejam capturados e enviados a um daqueles matadouros. Entre atônitos e amedrontados, muitos passam a sugerir planos mirabolantes de fuga. A mais lúcida e ao mesmo tempo mais estapafúrdia alternativa é justo a do que é considerado louco por seu povo: comprar um trem e alguns deles vestirem uniformes nazistas, para que disfarçados passem pela fronteira, rumo a Rússia, alcançando a sonhada liberdade.
A partir daí, o conselho da comunidade passa a recolher doações para a aquisição de locomotiva e vagões, todos adquiridos em péssimo estado de conservação, que são reformados antes da partida. Tudo feito às escondidas, para que a população da cidade vizinha não os delate. O maquinista encarregado da viagem é burocrata na estação ferroviária, que sempre sonhou em conduzir um trem, trazendo consigo velho manual. Há cisões entre os fugitivos: de comunistas a religiosos. O que é escolhido a se passar por major nazista, por dominar o idioma germânico, é pacífico judeu, de nome Mordechai, que com o passar do tempo, veste a personagem e trata a todos com se de fato fosse nazista, para que convença a si mesmo, e seja convincente, caso encontrem alguma patrulha alemã pelo caminho.
Fantasia que lembra caso verídico: experiência feita em faculdade americana, reunindo alunos, divididos em 2 grupos (apenados e carcereiros), teve que ser interrompida, pois os que se passavam por algozes começaram a ser truculentos com os falsos prisioneiros. O que corrobora com a assertiva de Napoleão: “Todo aquele que não deseja ser oprimido, quer ser opressor”. O caso do perseguido povo de Israel, que sempre disperso, até o final da 2ª Guerra, e que durante esta sofreu o maior genocídio da História (em prisões e fornos crematórios), e, anos depois, seu exército agindo de forma autoritária contra assentamentos palestinos, levantando muros, é paradoxo dramático.
Trem da Vida não é drama, apesar de mesclar comédia e tragédia, fazendo rir e chorar na dose certa, e a cada cena. Numa delas, talvez a que sintetize todo o filme, Schlomo, o bobo, reflete sobre a existência humana, numa das passagens mais memoráveis: “Deus criou o homem à sua imagem./Isso é lindo! Schlomo à imagem de Deus./Mas quem escreveu isso no Torah?/Foi o homem, não Deus./O homem escreveu sem modéstia, comparando-se a Deus./Talvez Deus tenha criado o homem.O homem./O homem, filho de Deus, criou Deus, só para poder se inventar.../O homem escreveu a Bíblia... para não ser esquecido sem se importar com Deus/Não amamos e não oramos a Deus./Ou melhor, imploramos para que nos ajude aqui na Terra.../Mas não nos importamos com Ele./Só pensamos em nós mesmos./A questão não é saber se Deus existe ou não.../Mas sim se nós existimos”.
Ao olharmos em volta, e vermos o mundo e as pessoas que nos rodeiam, suas idiossincrasias, conceitos e preconceitos, pecados e virtudes, glórias e sinas, grandezas e misérias humanas, a questão é saber, não se Deus existe, mas se nós existimos da forma que vemos o outro ou que o outro nos vê. Quem ou o que é real? Como disse Paulo Autran: “Acho que o homem fez Deus a sua imagem e semelhança.”
Nesse Trem da Vida, nem sempre somos a locomotiva da própria existência passageira, e, quando muito, apenas um dos inúmeros vagões, atrelados aos interesses de “maquinistas” que decidem por nós: vida, caminho, destino e futuro. Descarrilados sonhos são deixados pra trás, quando descemos na estação deserta ou seguimos adiante sem fazer concessões ao justo, líquido e certo. Se a vida é como o trem que passa, talvez cada vagão seja parte de nós, lotado de esperanças e desilusões. Padre Vieira disse: “Os vivos são pó levantado, os mortos são pó caído; os vivos são pó que anda, os mortos são pó que jaz”.

José Antonio Klaes Roig

Observação 1: Artigo de opinião, de minha autoria, publicado em 24/11/2005, no Jornal do Norte, de São José do Norte - RS - Brasil.
Observação 2: Publicado em função do conflito em Gaza, para uma reflexão.
Observação 3: Imagem acima, colagem de minha autoria, a partir de recortes de revistas antigas, usando apenas tesoura e cola bastão e digitalizando o resultando.

O Amor depois de Romeu e Julieta


“Um dia, quando já não houver império britânico nem república norte-americana, haverá Shakespeare; quando se não falar inglês, falar-se-á Shakespeare”.
MACHADO DE ASSIS, escritor brasileiro.

Nunca consegui descobrir por que eles, apesar de conviverem juntos desde a infância, morarem perto um do outro, jamais foram felizes. Tinham tudo para viver um grande amor, mas sucumbiram às pressões dos pais, como muitos jovens o fazem ao redor do planeta, por causa de hipocrisia, fanatismo, classe social, religião...
Dizem que muito antes de Shakespeare escrever seu romance mais famoso Romeu e Julieta, um outro casal lhe teria servido de inspiração. Chamava-se Israel e Palestina, amavam um ao outro quando crianças, mas ao crescerem suas famílias lhe proibiram o casamento. Nunca lhes disseram o motivo. Julgavam eles ser por terem dois países convivendo duramente num só, dois costumes, duas línguas, dos genes, duas religiões.
Passaram-se muitos anos, séculos e os filhos de Israel passaram a odiar as filhas da Palestina, pois os pais dos mesmos lhe insuflavam o ódio, que nenhum dos dois lados sabia de onde vinha; afinal, segundo consta, no início dos tempos e da Criação todos eram irmãos, tanto pelas escrituras, quanto pelos costumes passados de geração em geração.
Hoje um descendente de Israel e uma filha da Palestina, em plena Jerusalém dividida, tentam acanhadamente dar-se às mãos. Conversam entre sussurros, pelos becos, olhando em volta, com medo de Capulettos e Montecchios do passado venham separá-los novamente. Soldados patrulham zonas ocupadas. Populares organizam Intifadas. Quando parece que os dois jovens vão conseguir finalmente se beijar há que recuar, pois o campo fica de novo minado. Helicópteros sobrevoam cada pedaço de ilusão. Então, Israel foge e Palestina se esconde, sem antes deixarem de fazer juras perdidas de amor. Quando será que o nosso amor poderá livremente desabrochar, perguntam-se os dois amantes, enquanto tanques invadem as ruas e rapazes de turbante, cobrindo o rosto, jogam garrafas explosivas sobre um sonho de paz e amor.
Quando o provável massacre é contornado, ali em frente jazem dois corpos, feridos de morte, pelos estilhaços de rajadas de metralhadora e de coquetel molotov, disparados, jogados por cada um dos dois lados beligerantes. São Romeu e Julieta do Oriente Médio caídos no chão numa poça de sangue, provando que a vida imita a arte, e que o amor depois de Shakespeare continua entre o céu e a terra, como uma grande interrogação.
Então, um repórter fotográfico que por ali estava à procura de um furo jornalístico, capta com sua lente a incrível cena saída das páginas de um romance medieval. Dispara “flashe” um após o outro, como um soldado num campo de batalha. Tudo para sobreviver na profissão.
— Com essas fotos ganharei um prêmio, fama e muito dinheiro, exulta, enquanto surpreende-se ao ver entre os dois corpos um jornal todo amassado, em que uma das páginas traz circulada em vermelho (de tinta, não de sangue) uma pequena nota, só que escrita numa língua que ele julga tratar-se de português. Só que ele fala apenas inglês. Se soubesse aquela estranha língua, de um país distante chamado parece-me de “Bolívia”, onde sua capital é talvez “Buenos Aires”, descobriria uma outra história de amor vivida em pleno Brasil.
Assim está descrita a notícia:

Jornal Zero Hora, Porto Alegre, quarta-feira, 10 de maio de 2000, página 49.

GENÉTICA - Árabes e judeus são parentes

Um novo estudo genético acaba de comprovar o que a História já sugeria: judeus, palestinos, sírios e libaneses, há longo tempo envolvidos nos sangrentos conflitos do Oriente Médio, são todos irmãos do ponto de vista genético. Segundo uma pesquisa que envolveu uma equipe internacional de cientistas, esses povos partilham uma mesma linhagem comum, iniciada milhares de anos atrás, e que, desde então, sofreu poucas misturas com outros povos. Segundo Harry Ostrer, diretor do Programa de Genética Humana da Escola de Medicina da Universidade de Nova York (EUA) e um dos responsáveis pelo estudo, judeus e árabes são descendentes de Abrahão e preservaram suas raízes ao longo dos últimos 4 mil anos.
Os pesquisadores analisaram o cromossomo Y, transmitido do pai para o filho homem, de mais de 1.371 homens de 29 grupos populacionais de diversas regiões do mundo, incluindo judeus e não-judeus. Descobriram que árabes e judeus partilham um ancestral comum e são mais aparentados uns aos outros do que aos não-judeus de outras partes do mundo.

Se o tal repórter entendesse um pouquinho apenas de português, e soubesse um pouco da vida daqueles dois, descobriria, que tanto Israel como Palestina moraram uns largos tempos — até a adolescência — no Brasil, país exótico conhecido por sua miscigenação racial. Lá estudaram na mesma escola, tinham os mesmos amigos, logo se apaixonaram um pelo outro. Quando suas famílias suspeitaram de algo mais sério, os exportaram para sua terra natal, pois achavam que aqui em Jerusalém, muito além de tudo, não teriam clima para viver um grande amor.
Por que agiram assim? Porque julgavam que irmãos não deviam se casar! Afinal, para parafrasear William Shakespeare, “há mais coisas entre o céu e a terra, que a nossa vã filosofia possa vislumbrar...”.
Então, o casal morto foi manchete de jornal em todo o mundo — jornais e tele-jornais, capas de revistas, músicas, quadros, além de livros, é claro —; enquanto seus pais e países faziam força para se aproximar (num acordo de paz costurado com muito cuidado), tal como diz a nota do jornal, quando no início dos tempos todos eram irmãos.

José Antonio Klaes Roig

Observação 1: Conto escrito em 15/05/2000, integrante do livro inédito de contos e crônicas "Aos Jovens do Ano 2000".
Observação 2: Texto publicado em função do conflito em Gaza, para uma reflexão.
Observação 3: Imagem acima, colagem de minha autoria, a partir de recortes de revistas antigas, usando apenas tesoura e cola bastão e digitalizando o resultando.

03/01/2009

A chave-mestra


A casa da minha existência
dormia em sono leve,
como uma criança que sonha feliz
com um mundo breve,
cubo mágico em eterna construção.

Todo poema deveria trazer em si
a própria terna chave-mestra...
para abrir caminhos ante às portas de eterna contradição.
Leio e escrevo para ter o que dizer...
Palavra puxa palavra, pois papel em branco
não desperta à bela adormecida imaginação.

Entre o dizer e a forma deste dizer -
entre o enunciado e a enunciação,
entre o anúncio e a anunciação -,
a meta da linguagem é sempre a comunicação;
a escrita é apenas um meio de dar vida
à palavra, que dá asas à imaginação...
que dará consistência inclusive
a quem nenhuma vida tinha, até então...

Para o poeta, a palavra é a chave-mestra,
tanto para a vida sonhada, como para o amor da namorada.
Entre a verdade do irreal e a irrealidade do verdadeiro,
há que se criar um novo código para dizer
a mesma coisa doutras “boas” maneiras...
Para abrir a morada da própria consciência,
é preciso também saber afinal de contas
entre tantas fechaduras, qual delas
que está emperrada, qual que abrirá o caminho
para alguma porta secreta ou algum mágico portal.

Carrego comigo sempre uma chave-mestra...
Se a palavra chuva vira palavra-chave no poema,
palavra puxa palavra, abre portas, descerra janelas...
Quebra com o tempo segredos, vidros, cofres e medos...

As máquinas não sonham, vivem apenas;
os homens não vivem, sonham com as penas..
Um dia o menino só encontrou no chão
a chave-mestra que abria todas as portas e seus caminhos.
Daquele dia em diante ele nunca mais foi o mesmo;
nunca mais voltou ao seu estado original.
Sua casa primeva não existia mais no mesmo local...
A casa para a qual sempre se volta,
está sempre viva dentro de nós; pois,
apenas quem traz em si a chave-mestra é imortal...

José Antonio Klaes Roig

Observação 1: Poesia feita em 03/01/2009, protegida pela lei de direitos autorais. Sua reprodução é proibida sem a autorização prévia do autor.
Observação 2: A imagem acima, colagem de minha autoria, feita há mais de 10 anos atrás, primeiramente para ilustrar capas de fitas de áudio, tipo K-7 (mídia hoje ultrapassada), a partir de recortes de revistas, usando tesoura a cola bastão e escaneando o resultado para o microcomputador