
“Como espécie, o homem tem procurado aniquilar os ratos da face da Terra, mas jamais conseguiu. Da mesma forma, fomos subjugados, torturados, conquistados, mas ninguém conseguiu nos aniquilar. Essa tem sido à força da nossa civilização. Mas como vivemos? Como ratos”.
VISHWA NATH, jornalista indiano.
Kruel era um monstro, mas a despeito de outros tantos que vagam por aí (escondidos nas sombras, nos matos), este vivia entre os seres humanos disfarçado de gente comum, como se fosse um de nós, sem ninguém jamais perceber.
Era tão astuto que chegou até mesmo a possuir carteira de identidade, de habilitação, profissional, porte de arma, e outros documentos que qualquer cidadão comum pode obter. Conseguiu integrar-se à civilização humana, mais rápido que qualquer um dos seres humanos. Tudo por causa (ou seria culpa?) de seu currículo invejável nas artes do mal.
Entretanto ele era realmente um monstro violento, sanguinário, homicida, um predador.
Somente quando descia aos calabouços do Poder Absoluto, que prendia, arrebentava, seqüestrava e matava sem dar explicações a ninguém, que ele se transfigurava: os olhos arregalavam-se, a mão ficava pesada e criava garras, o olhar frio congelava e sua cara de mal se desmascarava por completo para as pobres das vítimas aprisionadas e indefesas naqueles matadouros de gente camuflados de residência normal.
Naquele instante, ele e outros mais que depois começaram a sair de seus esconderijos — os esgotos das cidades —, mostravam sua verdadeira face de ratos imensos, cinzentos, olhos vermelhos esbugalhados, como se estivessem drogados... E o pior de tudo, parece que gostavam muito do que faziam a suas presas indefesas, que por eles tinham seus corpos dilacerados. Metamorfoseavam-se, ora em gente, ora em ratos, tal qual num conto de Kafka, só que bem real.
Os donos do poder selecionavam estes monstros vindos de toda parte, dando-lhes aulas de como torturar sem matar (apesar de que isso na maioria das vezes era impossível de controlar; matar sem razão fazia parte de seu instinto assassino de monstro cruel), deixando a cargo deles o “SS”, também conhecido pela alcunha de serviço (secreto...) sujo — afinal, a maioria daqueles monstros tinha vindo dos esgotos fétidos —, que os homens de bem (e quem seriam eles?), não queriam fazer. Que nem Pilatos, os humanos, lavaram as mãos na água sanguinolenta da repressão praticada pelos monstros, com seu aval. Embora se fizessem de cegos, surdos e mudos aos gritos de dor daqueles que eram trucidados monstruosamente nas prisões, aquilo tudo realmente existiu. Não fora inventado por ninguém. Infelizmente, o que se passou naqueles porões não era nenhum conto de terror, fruto da imaginação prodigiosa de um Edgar Allan Poe. Quem dera tivesse sido apenas realidade virtual.
Eles, os monstros, andavam em bando, feito ratazanas, disfarçados de agentes especiais, óculos escuros, de carro oficial, viatura ou camburão, procurando, rastreando, prendendo gente que era anunciada nos órgão de imprensa como “monstros”, para depois, eles, feito caçadores, prender, torturar, trucidar, fuzilar suas presas sem perdão. Os monstros matavam gente, mas para o grande público, era justamente o contrário que acontecia. Chegaram até fuzilar, torturar milhares em estádios de futebol. Espalharam-se por toda a latinidade, ocupando cargos em governos que chegaram ao poder pela força das armas. As ratoeiras foram banidas da face da Terra.
Lá nos porões sinistros do poder central, colocavam os prisioneiros sobreviventes ao cerco, emboscada, tiroteio, em paus suspensos, chamados pau-de-arara, dando-lhes choques elétricos por todo corpo, principalmente nos órgãos genitais, surrando e fazendo outras “monstruosidades”, que, é claro, só monstros como eles sabem e conseguem fazer. E nós, seres humanos comuns nem podemos imaginar. Tudo para tirar uma confissão de um crime, que aqueles, na maioria das vezes, não haviam cometido, foram confundidos com alguém parecido, ou que trocaram apenas duas palavras na rua com outro suspeito, para eles um desconhecido, passando imediatamente a serem seguidos, bisbilhotados, interceptada sua correspondência, “grampeado” seu telefone, devassada sua casa em sua ausência; enfim, um amontoado de barbaridades, que só uma terra sem lei e sem dono pode admitir. Nem Stephen King e suas histórias de terror puderam superar o horror daqueles tempos não tão distantes assim...
Que mundo estranho aquele, em que ratos de verdade eram tidos por muitos como homens e os verdadeiros homens - muitos deles jovens idealistas que largaram a família, os amigos e o trabalho - eram perseguidos, torturados e exterminados como ratos — cobaias num laboratório de filme de terror. Quem dera tudo não tivesse passado de um filme, de uma virtualidade, mas...
Ao final de um dia de trabalho duro e “desumano”, em todos os sentidos, os monstros, inclusive Kruel (o líder dos ratos em forma de gente) se travestiam de novo em seres humanos e voltavam para suas casas, para ter uma vida de gente normal, com a consciência (e eles têm uma?) do dever cumprido, mesmo que a qualquer preço. Uma geração inteira pagou com a vida um preço muito alto por seus ideais. Muitos deles distorcidos eu sei, mas a maioria lutando contra moinhos de vento bem reais.
Aos monstros não era imposto limites. Chegavam a casar com mulheres humanas e ter filhos normais com elas, e o que é mais incrível: ficavam todos “derretidos”, que nem manteiga fora da geladeira, ao verem o filho pequeno correr em sua direção e chamá-los de “Papai!”.
Graças a Deus, parece que os monstros foram se integrando à vida humana, e deixando aos poucos seus hábitos cruéis e desumanos, atrás da cortina da História, debaixo do tapete empoeirado do Tempo. Alguns se regeneram por completo (será?); outros morreram, viajaram, sumiram, desapareceram (queima de arquivo!) do mapa. Hoje a História Oficial, às vezes, parece virtual.
Os filhos dos monstros, para o nosso bem e de nossos filhos e netos, puxaram às mães: são seres humanos como nós, todos normais... Espero! Isso só futuro e os avanços da Ciência poderão comprovar. O dia que puderem decodificar o código genético dos seres vivos com 100% de certeza esta dúvida poderá ser esclarecida. Até lá resta-nos confiar desconfiando e deixando sempre armada uma ratoeira aos pés de nossa cama ao deitar.
Agora, os monstros que aparecem mais e mais a cada dia, são deformações genéticas de uma sociedade desumana e cruel — criados por desgovernos seguidos —, que drogados ou com desvio de personalidade atacam idosos, crianças e mulheres indefesas, sentindo nisso um enorme prazer. São monstros também, mas fáceis de ser capturados, pois não tem todo um aparato para encobrir, disfarçar, apagar suas pegadas monstruosas pelo chão. Não se escondem no submundo do poder. Estão incubados às vezes em um aparentemente pacato cidadão que de repente põe-se a matar por matar, tal qual um moto-boy, um enfermeiro, um pescador.
Na verdade, estes monstros que viveram entre nós, como se um de nós o fossem, eram apenas parasitas de um hospedeiro bem maior e mais tirano. Após, terminado o serviço para que foram chamados, voltaram para os esgotos de onde nunca deveriam ter saído, e que nós, seres humanos de verdade, esperamos que de lá nunca mais voltem. Apesar disso, de vez em quando pipoca uma notícia aqui e ali de abuso de autoridade nas delegacias, nos presídios, nas instituições de “amparo” ao menor-infrator. Monstros que criam monstros. Monstros que matam monstros. Monstros que amam monstros. Monstros hospedeiros, monstros parasitas. Monstros reais nas ruas, monstros virtuais na televisão.
Depois eclodem rebeliões violentas que nem a do Carandirú, e as autoridades, em seus castelos virtuais, ficam a culpar A, B e C pelo descaso oficial. Para uns os monstros atrás das grades devem ser exterminados pelos monstros com aparato militar. Para muitos o monstro é o vizinho alcoviteiro, a mulher geniosa, a mãe repressora, a sogra intrometida, o patrão ditador. Acreditar em quem? Confiar em quê? Há quem pedir socorro? Mas que bobagem! Para os céticos, que tudo sabem e nunca erram, tudo isso não passa de realidade virtual.
José Antonio Klaes Roig
Observação 1: Acima, conto de minha autoria, escrito em 20/02/2005, e integrante do livro Realidade Virtual (2004).
Observação 2: Publicado em função do conflito em Gaza, para uma reflexão sobre os instintos primários despertados pela guerra.
Observação 3: Imagem acima, colagem de minha autoria, feita há cerca de mais de 10 anos, a partir de recortes de revistas antigas, usando apenas tesoura e cola bastão e digitalizando o resultando.