Desejo



Desejos
entrecortados pelo tempo são os sonhos,
assim como o alfaiate que ao recortar um terno,
molda a morta roupa a um vivo corpo.
Desejos
entrecruzados pela vida são os caminhos,
assim como o guia que descobre atalhos,
entre a palma da mão e o coração...

A vida é uma e-terna contradança
de emoções, entrelinhas e contradições.
Penso todos os dias somente no hoje,
nunca, jamais no que se tornará o Amanhã.

Nem sempre sei explicar por palavras o que sinto,
apenas sinto a vida fluir em mim,
como o rio que desce de encontro ao teu mar.
Amar: certeza ao sair, dúvida d'aonde se vai chegar...

Às vezes, tenho frio, fome e medo,
mas tenho em ti depositado
todos os meus sonhos, amores e segredos...

Muitas vezes viajamos no mesmo trem do tempo,
outras vezes, quiçá, noutras vidas, corpos e momentos...
Vagamos por estações, descendo antes da hora,
até o dia que enfim nossos olhares se entrecruzem,
e uma janela abra-se por completo para o amor...

Somos todos sobreviventes,
sobrevivemos ao próprio tempo.
Desejo-te em mim, dia sim, dia também.
Desejo-me em ti, toda hora, todo instante.
Sem palpitação (de paixão/amor)
o coração torna-se burocrata do viver...
Tique-taque de relógio;
finge vida, mas não sabe o que é
de fato o viver...

Se os amigos verdadeiros são
nosso pequeno mapa do tesouro
nessa ilha flutuante no meio do universo,
que chamam de Terra;
O amor verdadeiro é passagem sem volta
para o pequeno paraíso terreno
que existe nalgum recanto da existência...

Desejo-te em mim, desejo-me em ti...
O que é afinal o desejo
além do abraço e do beijo?
O que é o desejo além do próprio desejar?
Talvez seja algo como o amor, além do amar...
Desejo-te mais quando menos te vejo,
quando o amor crava mais fundo em mim
o teu pequeno e afiado percevejo...

José Antonio Klaes Roig

Observação 1: Poema acima, de minha autoria, escrito em 06/10/2009. Protegido pela lei de direitos autorais.
Observação 2: Imagem acima, fragmento de colagem de minha autoria, feita a partir de recortes de revistas antigas, usando apenas tesoura e cola bastão, e digitalizando o resultado pro computador.

Comentários

Gabriela Borges disse…
Somos apenas sobreviventes do tempo até o amor se mostrar a nós?
"Vagamos por estações, descendo antes da hora,
até o dia que enfim nossos olhares se entrecruzem,
e uma janela abra-se por completo para o amor..."

"Desejo-te mais quando menos te vejo,
quando o amor crava mais fundo em mim
o teu pequeno e afiado percevejo..." Posso interpretar o percevejo como sendo a saudade? Que quanto mais tempo passa, mais machuca e no final acaba se incorporando a nós?

Muito bonito o poema!
Oi, Gabriela. Bela interpretação. Pensei nessa metáfora do percevejo justamente assim, que é algo que inicia pequeno, mas que crava fundo na gente: a saudade é bem assim! Você é uma ótima leitora de entrelinhas... Brigadu pelo comentário, um abração!