A Herança de um Poeta Pobre


O bombardeio diário de más notícias faz-nos esquecer que o mundo é fruto do que plantamos. Se cada vez mais somos consumistas e individualistas - querendo furar fila de banco e etc., pois nossa pressa é maior que a dos demais e nosso tempo sempre curto, embora todos os relógios do mundo continuem a girar na mesma velocidade -, ainda temos tempo para retroceder a fita dos bons momentos, que não voltam mais.
É, o poeta tinha razão: o tempo não pára! Outro poeta, William Shakespeare - o maior de todos os tempos, abaixo apenas do Menino de Nazaré, que falava por parábolas, quase poemas, em sermões que arrastavam multidões, sedentas de seu saber -, disse certa vez: “Alguns vencem por seus crimes, outros são derrotados por suas virtudes”.
Ao saber do falecimento de Írio Rodrigues da Silveira – que por duas décadas viveu em São José do Norte -, mais que um poeta, um amigo, senti-me um pouco órfão, como se alguém da família partisse sem avisar. A Poesia perdera um de seus mais dedicados amantes. A praça Xavier Ferreira, em Rio Grande, perdera seu filho mais ilustre. Os pássaros não terão mais aquele anjo em forma de gente, para roubar-lhes sem ver uma pena, para um belo verso escrever. As próprias horas se arrastarão pelas ruas onde Írio costumava perambular, com sua bengala - herança de um atropelamento, ano passado, que o deixara mais debilitado. Vivia de favores: peças emprestadas para morar; refeições doadas por admiradores; material perdido em mudanças e outros prejuízos. Apesar de desprovido de recursos financeiros, jamais foi uma pessoa “pobre de espírito”. Viveu intensamente. Publicou três livros, se não me falha a memória: dois artesanais, e um com apoio da Prefeitura do Rio Grande. Seguidamente o encontrava pelo Calçadão, e sempre com um sorriso farto e um olhar penetrante, o Poeta Pobre, falava-me de projetos e sonhos. Combinara de um dia ir à sua moradia para entrevistá-lo. O tempo e o destino não permitiram.
Tenho quase certeza que Írio não era desse mundo. Quem sabe um anjo desses de bronze, em alguma praça, que observa tudo calado, e que um dia apaixonara-se por uma bela e jovem moça, chamada Poesia, que perambulava sozinha por entre as árvores, e que aquela visão fizera o anjo quebrar o encanto de sua prisão, saindo pelo mundo afora em busca da Amada em cada bosque ou praça, escrevendo belas declarações de amor à Vida. O anjo negro pertencia ao mundo das letras. Sua passagem por nossa terra era transitória. Ele sempre soube, nós apenas desconfiávamos. Desconfiamos também de tantas coisas – um olhar de carinho na rua, e ao invés de retribuirmos, com medo, dobramos à primeira esquina, e perdemos irremediavelmente a chance de conhecermos o grande Amor. Assim fazemos com tudo e todos ao nosso redor, e com receio de viver, apenas vegetamos, escravos do relógio: hora pra isso e aquilo, até recomeçar essa jornada repetitiva em torno do próprio umbigo.
O poeta não morreu. Seus escritos lhe darão a imortalidade não do bronze, mas do reconhecimento de que uma vida, ainda que sofrida, cheia de privações e desilusões, não fora em vão. Alguns poderão dizer: Poesia não serve para nada, não paga o aluguel nem a conta do supermercado! Exato. Poesia jamais será ração da cesta básica, e podemos sobreviver sem ela. Mas num mundo tão prisioneiro do materialismo, sempre é bom saber que a Poesia Livre, para uns, pode ser mais que o pão nosso de cada dia... Pode até humildemente ser comparada, quando bem escrita, a pequena oração, que recitamos em silêncio, com a comovida Esperança em dias melhores, nas escuras e longas horas de aflição.
Eis a herança que o Poeta Pobre nos legou: sejamos menos bronze e mais humanos! Enquanto há tempo, digamos às pessoas que nos cercam, o quanto às amamos e o quanto nos são importantes; já que depois que se vão, de nada adianta escrever poemas ao vento...
Em julho comemora-se o centenário de nascimento de Mario Quintana, o Poeta Maior do RS. Írio, o maior poeta rio-grandino, partiu antes da hora para abraçar o homem do sapato florido n’algum jardim do céu. Parafraseando Quintana: “As pessoas não morrem; mudam apenas de casa e se esquecem de nos avisar”.

José Antonio Klaes Roig

Observação 1: Texto em homenagem ao colega e amigo Írio Rodrigues, o Poeta Pobre, na página da Academia Rio-Grandina de Letras, suplemento O Peixeiro, do Jornal Agora, de Rio Grande - RS - Brasil, publicado em 27/6/2006, dias após seu falecimento.
Observação 2: Para saber mais sobre o motivo dessa recuperação de texto, visitar o blog Letra Viva do Roig.
Observação 3: Imagem acima, de Írio Rodrigues, escaneada da capa de seu livro de poemas.

Comentários

Fábio Adiron disse…
Totalmente ignorante a respeito...aceito indicações para aprender sobre o poeta...
Caro Fabio.
Eis alguns dados extraídos da comunidade do Orkut, criada para homenagear Írio Rodrigues, o Poeta Pobre, ainda em vida:
"Írio Rodrigues, o Poeta Pobre (1937 – 2006), morto aos 69 anos de idade, nunca freqüentou escola; tendo aprendido a ler sozinho, aos nove, ainda na infância sua veia poética despertou; órfão de pai, ajudava a mãe, lavadeira, no sustento da família de cinco irmãos. Adulto, morou no Rio e em São Paulo, onde passou por muitas dificuldades. Dizia ter perdido a conta de quantos poemas escreveu; sua obra é marcada por uma temática que remete ao social quase que em sua totalidade, sem aprofundamento ideológico ou filosófico, mas com forte acento anímico/emocional. Nos tempos que antecederam seu falecimento residiu numa pensão no centro de Rio Grande – RS, sobrevivendo de doações e das vendas de suas poesias (editadas por ele mesmo ano após ano, em xerox). Seu único livro até agora publicado é uma compilação cujo título é “Coletânea 2003”. Não obteve o devido reconhecimento em vida, mas sua presença finca-se pela qualidade de sua obra e pelo valor de sua pessoa, elementos que transcendem a morte."
Fonte:
http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=7464836
Assim que der, te mando alguns poemas dele.
Um abraço, Zé Roig.
onde acho texto dele?
Jonas disse…
Nós leitores e amantes da poesia perdemos um grande poeta. Me recordo dele quando jovem na praça sempre com um olhar marcante e uma humildade enorme. O Poeta Pobre é uma lição de vida em vida que muitos deveriam aprender. Pois somente assim dariam mais valor a vida e ao próximo.
Lenita Acunha disse…
Seu Írio era uma pessoa maravilhosa as vezes nos encontramos na praça no mercado público de Rio grande era sensacional conversar cm ele.Que esteja descansando junto ao pai.Grande perca foi sua morte.