O Amor depois de Romeu e Julieta


“Um dia, quando já não houver império britânico nem república norte-americana, haverá Shakespeare; quando se não falar inglês, falar-se-á Shakespeare”.
MACHADO DE ASSIS, escritor brasileiro.

Nunca consegui descobrir por que eles, apesar de conviverem juntos desde a infância, morarem perto um do outro, jamais foram felizes. Tinham tudo para viver um grande amor, mas sucumbiram às pressões dos pais, como muitos jovens o fazem ao redor do planeta, por causa de hipocrisia, fanatismo, classe social, religião...
Dizem que muito antes de Shakespeare escrever seu romance mais famoso Romeu e Julieta, um outro casal lhe teria servido de inspiração. Chamava-se Israel e Palestina, amavam um ao outro quando crianças, mas ao crescerem suas famílias lhe proibiram o casamento. Nunca lhes disseram o motivo. Julgavam eles ser por terem dois países convivendo duramente num só, dois costumes, duas línguas, dos genes, duas religiões.
Passaram-se muitos anos, séculos e os filhos de Israel passaram a odiar as filhas da Palestina, pois os pais dos mesmos lhe insuflavam o ódio, que nenhum dos dois lados sabia de onde vinha; afinal, segundo consta, no início dos tempos e da Criação todos eram irmãos, tanto pelas escrituras, quanto pelos costumes passados de geração em geração.
Hoje um descendente de Israel e uma filha da Palestina, em plena Jerusalém dividida, tentam acanhadamente dar-se às mãos. Conversam entre sussurros, pelos becos, olhando em volta, com medo de Capulettos e Montecchios do passado venham separá-los novamente. Soldados patrulham zonas ocupadas. Populares organizam Intifadas. Quando parece que os dois jovens vão conseguir finalmente se beijar há que recuar, pois o campo fica de novo minado. Helicópteros sobrevoam cada pedaço de ilusão. Então, Israel foge e Palestina se esconde, sem antes deixarem de fazer juras perdidas de amor. Quando será que o nosso amor poderá livremente desabrochar, perguntam-se os dois amantes, enquanto tanques invadem as ruas e rapazes de turbante, cobrindo o rosto, jogam garrafas explosivas sobre um sonho de paz e amor.
Quando o provável massacre é contornado, ali em frente jazem dois corpos, feridos de morte, pelos estilhaços de rajadas de metralhadora e de coquetel molotov, disparados, jogados por cada um dos dois lados beligerantes. São Romeu e Julieta do Oriente Médio caídos no chão numa poça de sangue, provando que a vida imita a arte, e que o amor depois de Shakespeare continua entre o céu e a terra, como uma grande interrogação.
Então, um repórter fotográfico que por ali estava à procura de um furo jornalístico, capta com sua lente a incrível cena saída das páginas de um romance medieval. Dispara “flashe” um após o outro, como um soldado num campo de batalha. Tudo para sobreviver na profissão.
— Com essas fotos ganharei um prêmio, fama e muito dinheiro, exulta, enquanto surpreende-se ao ver entre os dois corpos um jornal todo amassado, em que uma das páginas traz circulada em vermelho (de tinta, não de sangue) uma pequena nota, só que escrita numa língua que ele julga tratar-se de português. Só que ele fala apenas inglês. Se soubesse aquela estranha língua, de um país distante chamado parece-me de “Bolívia”, onde sua capital é talvez “Buenos Aires”, descobriria uma outra história de amor vivida em pleno Brasil.
Assim está descrita a notícia:

Jornal Zero Hora, Porto Alegre, quarta-feira, 10 de maio de 2000, página 49.

GENÉTICA - Árabes e judeus são parentes

Um novo estudo genético acaba de comprovar o que a História já sugeria: judeus, palestinos, sírios e libaneses, há longo tempo envolvidos nos sangrentos conflitos do Oriente Médio, são todos irmãos do ponto de vista genético. Segundo uma pesquisa que envolveu uma equipe internacional de cientistas, esses povos partilham uma mesma linhagem comum, iniciada milhares de anos atrás, e que, desde então, sofreu poucas misturas com outros povos. Segundo Harry Ostrer, diretor do Programa de Genética Humana da Escola de Medicina da Universidade de Nova York (EUA) e um dos responsáveis pelo estudo, judeus e árabes são descendentes de Abrahão e preservaram suas raízes ao longo dos últimos 4 mil anos.
Os pesquisadores analisaram o cromossomo Y, transmitido do pai para o filho homem, de mais de 1.371 homens de 29 grupos populacionais de diversas regiões do mundo, incluindo judeus e não-judeus. Descobriram que árabes e judeus partilham um ancestral comum e são mais aparentados uns aos outros do que aos não-judeus de outras partes do mundo.

Se o tal repórter entendesse um pouquinho apenas de português, e soubesse um pouco da vida daqueles dois, descobriria, que tanto Israel como Palestina moraram uns largos tempos — até a adolescência — no Brasil, país exótico conhecido por sua miscigenação racial. Lá estudaram na mesma escola, tinham os mesmos amigos, logo se apaixonaram um pelo outro. Quando suas famílias suspeitaram de algo mais sério, os exportaram para sua terra natal, pois achavam que aqui em Jerusalém, muito além de tudo, não teriam clima para viver um grande amor.
Por que agiram assim? Porque julgavam que irmãos não deviam se casar! Afinal, para parafrasear William Shakespeare, “há mais coisas entre o céu e a terra, que a nossa vã filosofia possa vislumbrar...”.
Então, o casal morto foi manchete de jornal em todo o mundo — jornais e tele-jornais, capas de revistas, músicas, quadros, além de livros, é claro —; enquanto seus pais e países faziam força para se aproximar (num acordo de paz costurado com muito cuidado), tal como diz a nota do jornal, quando no início dos tempos todos eram irmãos.

José Antonio Klaes Roig

Observação 1: Conto escrito em 15/05/2000, integrante do livro inédito de contos e crônicas "Aos Jovens do Ano 2000".
Observação 2: Texto publicado em função do conflito em Gaza, para uma reflexão.
Observação 3: Imagem acima, colagem de minha autoria, a partir de recortes de revistas antigas, usando apenas tesoura e cola bastão e digitalizando o resultando.

Comentários

Elis Zampieri disse…
Como diz vc Zé... Bah! fiquei sem palavras.
Muito, muito bom!
Parabéns!
Oi, Elis, esse conto foi escrito antes da era-Bush, qdo Israel e Palestina estavam com tratativas de paz, mas pelo jeito, meu texto permaneceu vivo e não datado, por força dessa extrema animosidade entre povos aparentados que estão em conflito a séculos.
Em 2000, escrivi meu primeiro livro, chamado Aos Jovens do Ano 2000, que foi um pequeno laboratório para mim, reunindo textos antigos aos que escrevi no próprio 2000. O texto título do livro, por exemplo, escrevi em 2005, ainda no ensino médio. Mas incrivelmente, a maioria dos textos, apesar de serem experimentais, ainda são atuais.
Realidade Virtual, foi o segundo a ser escrito e o primeiro (e único até agora) a ser publicado.Nesses dois livros, sempre coloco uma epígrafe que sintetiza a narrativa a seguir. Fruto de minhas leituras de mundo.
Brigadão miga, pela visita e comentário. Abração! Zé