Subentendido


Enquanto o eu lírico dormia
A luz interior do farol
Além de mim reluzia...

Tudo na vida
Para perdurar além de si
Deve estar subentendido...
Contido na arte de falar sem dizer...
Do dito pelo não dito...

Para o amor durar além da paixão
Deve estar contido em frasco
Como valioso perfume francês...

A cada mês
Muito se fala quando nada se diz,
Pouco se diz quando muito se fala...
Na mala não cabe todo o vestuário,
Da mesma forma que no armário
Não se encontra habitação para a alma...

O que importa primeiro:
Iludir o corpo ou trair a calma?

Muito se fala quando a palavra cala fundo
No branco dos olhos e do texto...
Pretexto é fingir amor apenas por sexo...

A vida se perde em si mesma
Quando o mundo desconhece a sua existência.
Entre o salto e o sobressalto e o cair em si,
Entre o silêncio, a recorrência e o falar por falar;
Melhor ter a certeza de que as palavras
Não dão conta do oposto do que é exposto
Pelo eterno jogo de espelhos...

Fica subentendido que
Amor não é nome de fruta invertido
Nem paixão deve ser vista apenas a olho nu...
Não sou eu, tampouco tu, culpados
Do que deixou de acontecer,
Por tudo que foi pensado jamais ter sido dito...
Pelo fato do retrato-falado ter se calado,
Diante do porta-retratos emudecido...

José Antonio Klaes Roig


Observação 1: Poesia escrita em 03/09/2008, e protegida pela lei de direitos autorais, sua reprodução é proibida sem a autorização prévia do autor.
Observação 2: A imagem acima, fragmento de colagem de minha autoria (feita em 2008), a partir de recortes de revistas antigas, usando apenas tesoura e cola bastão, e digitalizando para o microcomputador o resultado final.

Comentários

Marina disse…
Tanto se fala através de gestos.
Tanto se diz sem dizer nada.
Às vezes o silêncio é mais eloqüente
que qualquer palavra.
O silêncio é fala sem som.
O ódio é palavra insana.
O amor não precisa de palavras
para dizer que ama.

"Adorei o texto" estaria subentendido?

Abraço, Zé!!
Oi, Marina, belo poema acima! É teu? Brigadão pelo comentário. Um abração, Marina.
Marina disse…
O poema aí de cima? Escrevi na hora. rss Escrevi depois que li seu texto.

Abraço, Zé.
Uauuu. Bah, que legal. A arte tem disso. Uma vez escrevi um poema tb a partir da leitura de outro, acho que foi o "Cogito ergo sum", mais abaixo. É o que chamo de intertextualidade instantânea. Gostei demais de teu poema. Um abração, miga.
Elis Zampieri disse…
É Zé, é preciso saber o momento de falar e o momento de calar. Quanta coisa se diz entre as linhas...Quanta
coisa deixamos de aprender por não sabermos ler...

Coração na ponta dos dedos...Lindo poema!
Abraços declarados. :-)
Oi, Elis! Adorei o "abraços declarados", rsssss. Brigadão pelo comentário, fiz um tb no teu Rabiscos. Tive ai em teu estado, mas só deu chuva. Ou são pedro tava de reforma, ou eu que sou pé frio mesmo kkkk Um abração, miga. Zé.