
Que ninguém durma,
Que a noite não mais anoiteça,
Que o vinho jamais envelheça,
Que o amor não entristeça,
Que a terra não pereça,
Que o mundo não adoeça,
Que ninguém me peça... Para dormir sem sonhar...
A mãe Terra grávida de esperanças
Gravita em torno do umbigo de Deus.
Não são apenas os sonhos meus nem teus
Que fazem o mundo girar feito um pião celeste.
Se o Sol nasce no Leste e morre no Oeste,
Que ninguém durma antes de a Boa Nova chegar.
Assim como os primeiros navegadores,
Continuamos a desconhecer o que existe
Além do misterioso mar universal...
Se a vida fenece a alma não envelhece;
É o Tempo que se compadece das pequenas desilusões.
Que ninguém durma caminhando
Nem feche os olhos para a vida lá fora.
Que ninguém crie uma realidade alternativa
Para nela, em eterna felicidade e vigília, viver.
O fundo do céu e o olho profundo do mar,
Cada qual com sua imensidão infinita...
Em que mundo “real” queremos, enfim, estar, vagar?
Que ninguém durma antes da hora final.
Viver é navegar no Mar de Dentro...
O mar universal, a líquida placenta...
Quem sonha, um mundo para si inventa,
Quero então com um outro universo sonhar!
É no Mar de Dentro que vivo a meus sonhos pescar...
Que ninguém durma
Se o amor está apenas subentendido
Ou entre parênteses...
Se ainda não foi dito; se o olho fala e a boca cala
Dizendo sem dizer, como quem está a orar...
Quando se está a amar
O próprio amor salta aos olhos, quebra as vidraças!
Não há como querer aos olhos dos outros cerrar,
Como fazemos com nossas janelas gradeadas...
Que ninguém, enfim, durma
Antes do Amor Sem Nome regressar...
Observação 1: Poema escrito em 10/11/2007, inspirado em comentário sobre a morte de Pavarotti, feito pelo confrade e amigo Péricles Antonio Gonçalves, da Academia Rio-Grandina de Letras, em reunião da mesma (03/11/2007), em que cita o texto intitulado Nessun Dorma.
Observação 2: Poema protegido pela lei de direitos autorais, e a sua reprodução é proibida sem a autorização prévia do autor.
Observação 3: A imagem acima, colagem de minha autoria, a partir de recortes de revistas.
Observação 4: Nessun Dorma é uma ária do último ato da ópera Turandot, de Giacomo Puccini. A ária refere a proclamação da princesa Turandot, determinando que ninguém deve dormir: todos passarão a noite tentando descobrir o nome do príncipe desconhecido, Calàf, que aceitou o desafio. Caláf canta, certo de que o esforço deles será em vão.
Texto da partitura
Il principe ignoto
Nessun dorma! Nessun dorma! Tu pure, o Principessa,
nella tua fredda stanza
guardi le stelle
che tremano d'amore e di speranza...
Ma il mio mistero è chiuso in me,
il nome mio nessun saprà!
No, no, sulla tua bocca lo dirò,
quando la luce splenderà!
Ed il mio bacio scioglierà il silenzio
che ti fa mia.
Voci di donne
Il nome suo nessun saprà...
E noi dovrem, ahimè, morir, morir!
Il principe ignoto
Dilegua, o notte! Tramontate, stelle!
Tramontate, stelle! All'alba vincerò!
Vincerò! Vincerò!
Tradução proposta
O príncipe desconhecido (Calàf)
Que ninguém durma!
Que ninguém durma!
Você também, ó Princesa
Em seu quarto frio, olhe as estrelas
Tremendo de amor e de esperança
Mas meu segredo permanece guardado dentro de mim
O meu nome ninguém saberá
Não, não, só o direi na sua boca
Quando a luz brilhar
E o meu beijo quebrará
O silêncio que te faz minha
Coro feminino
O seu nome ninguém saberá
E nós teremos, oh!, que morrer, morrer
O príncipe desconhecido (Calàf)
Parta, oh noite
Esvaneçam, estrelas
Ao amanhecer eu vencerei!
Vencerei! Vencerei!
Notas e referências:
1. Libreto publicado por G. Ricordi & C., 1926. Primeira edição.
Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Nessun_Dorma
Nessun Dorma , vídeo de 3min e 10 seg, extraído do You Tube, com apresentação de Luciano Pavarotti, em Los Angeles (EUA) 1994.
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