
“Um homem sem paixões está tão perto da estupidez que só lhe falta abrir a boca para cair nela”.
SÊNECA, filósofo romano.
Uma criança faminta pedia “um pedacinho de pão, por favor” a todos que via pela frente. Todos fingiam não vê-la. Todos seguiam seu caminho como se nada tivesse acontecido.
João Sem Medo caminhava distraído pela rua quando viu o chão estremecer. Bem a sua frente o asfalto começou a rachar e um buraco imenso apareceu do nada. Se não estivesse sóbrio teria jurado ter visto uma enorme língua lamber a borda do buraco e sumir, em fração de segundos, em seu interior, escuro e fétido. Sentiu um mau hálito insuportável. Algum esgoto deveria ter se rompido.
Com o passar do tempo, este estranho buraco foi se alargando como se fosse uma enorme boca desdentada e faminta, crescendo, crescendo e engolindo tudo que via pela frente.
João Sem Medo, para contrariar seu sobrenome, passou a sentir receio. Paranóico, a cada esquina virava-se para trás, com a impressão de estar sendo seguido. Tudo ilusão, pensava.
Quando o buraco alargou-se mais e mais, bem em seu caminho, pôs-se a correr para bem longe para não ser tragado por aquela coisa em seu interior e sua gula infernal que cuspia fogo, vindo das profundezas da terra.
“A fome engole o mundo, e engolirá a gente se ninguém fizer algo para seu caminho mudar. Há muita gente faminta de pão, arroz, feijão, justiça, liberdade, igualdade, fraternidade e ilusão bem mais próximas do que percebemos. Há gente que passa fome. Há fome que passa pela gente, pedindo um pedacinho de pão. Poucos vêem, e se vêem, saem logo correndo de medo, que nem João e seu buraco negro devorador de gente, sem perceber que a menos que a história mude, um dia poderá ser um de nós também a mendigar por um pedacinho de pão...” – falou a voz da Consciência.
E quanto mais ele correu maior o buraco crescera, tragando ruas, casas, carros, prédios, árvores, estradas, bosques, florestas inteiras... Muitas sumiram do mapa. Daqui adiante o próprio mapa sumirá também dentro daquele buraco sem fim.
João, apavorado, correu até onde suas forças e suas pernas conseguiram alcançar, lá pras bandas do fim do mundo, onde ninguém nunca foi passear. Entretanto, a fome do buraco, que nasceu aparentemente do nada, não parou um segundo de crescer, devorando tudo pelo caminho, até que atingiu em cheio João, engolindo-o para a escuridão total. Tal qual a fome no mundo que vem crescendo assustadoramente e ninguém se importa. Quando bate a nossa porta não atendemos. E se atendemos a colocamos para correr: — Não tenho nada, passe outro dia! – volta a falar a voz da Consciência.
Muito tempo passou até João começar a ver lá no alto um brilho tímido, outro aqui e acolá, até surgirem milhares de pontos de luz como se fosse um céu estrelado - uma constelação perdida entre os trópicos de Câncer e Capricórnio.
— Oh, meu Deus! — exclamou. O buraco não parou de crescer e enfim chegou até às estrelas. Foi até o firmamento e devorou todas as estrelas, planetas e sistemas solares até transformar-se num imenso buraco negro. Por fim, aconteceu uma grande explosão e o Buraco arrotou, tamanha indigestão.
João se viu cuspido do outro lado do Universo bem no meio de uma rua deserta cheia de casinhas amarelas, com janelas vermelhas e uma estrada de tijolinhos marrom... Lá longe outra criança faminta a chorar, com os olhos cheios de remela, o nariz fungando, o ouvido doendo, os pés descalços cheios de bichos-de-pé, vinha pela rua deserta, batendo de porta em porta, pedindo ao deus-dará “um pedacinho de pão, por favor...”
Logo, ele pôs novamente o pé no mundo, quando percebeu a terra estremecer a seus pés e um pequeno buraco surgir do nada. Ele sentiu no ar aquele cheiro fétido de boca cariada, dentes podres, arroto infernal. Não pensou duas vezes. Já sabia o que isso representava. Saiu tropeçando nas pernas e nas palavras, gaguejando um inútil pedido de socorro, sem olhar para trás.
Parece que está até hoje correndo, mesmo sabendo que aquele buraco um dia irá alcançá-lo... Não adianta fugir, se esconder do mundo ou esconder do mundo as verdades – diz a voz da Consciência, que ninguém pára para escutar.
Ele, o Buraco, um dia irá nos achar aonde quer que nos refugiemos, seja um apartamento, uma trincheira ou uma prisão. Conclui a voz da Consciência. É mais fácil fugir dos problemas a ter que encará-los de frente, diria algum psicanalista de plantão.
Eu, parado aqui na esquina do tempo, vendo as pessoas fugirem de si mesmas, e não me chamando João Sem Medo, tenho muito medo de que o mundo seja um dia engolido de uma só vez pela ganância, o ódio, o racismo, a violência, a indiferença e a opressão que a cada dia que passa mais se aproxima de nós, batendo na nossa porta com um “três-oitão” carregado da balas de verdade (e que verdade!), levando consigo mais do que um pedacinho de pão.
Observação 1: Conto integrante do livro inédito AOS JOVENS DO ANO 2000, escrito em 12/09/1999. Este conto está protegido pela lei de direitos autorais, e a sua reprodução é proibida sem a autorização prévia do autor.
Observação 2: Imagem acima, de minha autoria, a partir de recortes de revistas.
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