
“Não sei como o mundo me vê; mas eu me sinto como um garoto brincando na praia, contente em achar aqui e ali uma pedrinha mais lisa ou uma concha mais bonita, tendo sempre diante de mim, ainda por descobrir, o grande oceano da verdade”.
ISAAC NEWTON, físico inglês.
E era uma noite escura, mais escura que a solidão. Céu sem estrelas. No mar um marinheiro solitário, rasgando cartas de amor em seu barquinho de papel.
E era uma noite fria, mais fria que aquela escuridão. Um vento forte gelando e congelando até o pensamento. Uma dor aguda correndo pelas veias e corroendo aquele homem só por dentro. Um sopro de malmequer levando pra bem longe da costa aquele pequeno barco, mais parecendo de papel ou papelão.
E era noite de temporal. O mar agitado era de setembro ou de um tempo remoto, abaixo do trópico, onde não se podia sonhar. Ondas que iam e vinham sem parar. Cada vez mais forte e aquele medo — maremoto — de morrer jovem, de a terra firme não poder mais voltar...
E o solitário olhou em volta e nada viu. Tudo perdidamente escuro e sem volta. Tudo sem sentido e sem razão. Tudo transatlânticamente tão fatal. Memórias de náufragos vencidos o rodeando que nem tubarões...
Em seu barquinho de papel fazendo água e mágoa por todos os cantos e todos os lados, o marinheiro de primeira viagem, olhou pela última vez para onde seu coração — bússola incerta — que lhe dizia ser terra firme, à espera de quem sabe um breve sinal.
Lá em frente, o pisca-pisca de um diminuto farol cortando a escuridão da noite, deu-lhe a força viva de um imortal. E ele jogou-se na água e nadou, nadou, nadou... Até aquele ponto luminoso, enquanto às suas costas afundava mais um barco naquele misterioso litoral.
E era quase manhã quando o marinheiro só chegou completamente exausto à praia. E para surpresa sua, descobriu naquele instante, antes de desmaiar de cansaço, que seu farol não passava de um menino pobre e também sozinho, que brincava pela praia escura com seu vaga-lume (vago sonho) numa noite de temporal...
Observação 1: Conto, escrito em 02/11/1988, integrante do livro inédito Aos Jovens do Ano 2000.
Observação 2: Imagem acima, colagem de minha autoria, a partir de recortes de revistas (datado de cerca de 8 a 10 anos atrás).
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