O Anjo de Batom


“Nem tudo que se enfrenta pode ser modificado, mas nada pode ser modificado até que se enfrente”.
JAMES BALDWIN, escritor norte-americano.

Um dia o anjo de batom saiu à rua com suas asas prateadas, libélula recém liberta de seu casulo, com cílios postiços, botas de salto alto, pele maquiada, boca pintada, mini-saia e outros acessórios extravagantes. Um verdadeiro arco-íris a desfilar pela rua. Todos riam dele: crianças, jovens e adultos. Era motivo de piadas e outras grosserias.
Na primeira esquina deparou-se com alguns carecas musculosos e seus cães danados, presos por grossas correntes, e ai corou de medo. A gangue infernal bateu sem dó no anjo, que todo quebrado, numa poça de sangue ficou quase morto no chão.
Depois que saiu do hospital, perdera suas asas prateadas que tanto adorava, além de seis dentes, um anel, um colar de pérolas, a bolsa e outros bens pessoais. Perdera também o medo que tinha ao sair de casa de encontrar os tais carecas, que a cada dia mais violentos ficavam com seus amigos iguais a ele — anjos de asas prateadas, douradas, acobreadas...
Resolveu entrar para uma academia. Fez musculação por seis meses. Raspou o cabelo a zero. Aprendeu a coçar o saco, colocar o pinto do lado esquerdo, cuspir no chão, arrotar em público, dizer palavrão, mijar em pé, gostar de mulher, só para aos outros impressionar. Violentou-se por dentro, mas seu objetivo maior era se vingar dos carecas machões.
Quando foi finalmente para a rua, bem machão e musculoso, encontrou pelo caminho um bando de anjos de batom irados, que resolveram vingar naquele careca o acontecido com seu colega de profissão. Como estavam em maioria, logo cercaram o pretenso careca, deixando após alguns minutos o mesmo boiando numa poça de sangue, devido aos chutes, beliscões, arranhões. Novamente nosso amigo infeliz não soube sair de uma situação adversa. Como andava sempre só, arcava com as conseqüências da solidão. Foi confundido, humilhado e torturado que nem antes.
Ao se recuperar dessa nova agressão e cicatrizar uma a uma todas as feridas, resolveu ser de agora em diante uma pessoa normal, como a maioria das pessoas da cidade, para poder sobreviver na selva de pedra que naquela terra se instalou. Se não pode com eles una-se a eles, pensou.
Aí se vestiu de mauricinho, boyzinho, todo engomadinho, e nunca mais foi importunado por ninguém, até o dia que se olhou no espelho e viu que aquela não era a vida que pedira a Deus, e sim a vida que lhe deixavam viver.

Observação 1: Conto do meu livro Realidade Virtual (2004), escrito em 2000.
Observação 2: Imagem acima, colagem de minha autoria, a partir de recortes de revistas (feita em torno de uns 8 a 10 anos atrás).

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