
Sigo a vida cometa errante
E tu me vês passar de teu mirante
Com risos e guizos a tilintar...
Ah, como é bom amar e ser amado
Divino sentimento a ser canonizado
Que acalenta meus assombros:
Da fortaleza é a doce guarida,
Dos enjeitados são os vastos escombros
De uma guerra santa mal parida,
Túmulo entreaberto de desgraças alheias
A se plantar com lança, espada e punhal...
O mundo sem Paz perde toda a graça!
É roça sem água corrente,
Açoite na nossa cara limpa,
Premonições sem vidente!
Amor desfeito sem mais nem menos,
É mais que uma interminável dor de dente,
Segredo impuro sem confidente,
Regaço – regato sem ter alguém pra se banhar...
O soldado exausto e ferido tomba,
Onde o vento feroz faz a curva,
Turva é a visão épica do general
Que bate em veloz derrocada
Depois de em Campo Sagrado adentrar...
Consola teu amor enquanto há tempo,
Pois o Imaculado Coração da Terra
Pede água, trégua e uma régua longa
Para medir as léguas e léguas
Que o flagelo de um amor perdido
Pode sem querer toda a terra a sua volta arrasar...
Conforta teu irmão-amigo depressa,
Quando a Morte em cortejo lento
Trouxer “fogueiras de vaidades” desgrenhadas
Nos cabelos encaracolados de Medusa...
Dá-lhe tua espada afiada e tua blusa,
Pois a tristeza hostil se avizinha
No coração: rica jazida inexplorada.
Quando os chacais, abutres, corvos
Vierem a nos rondar (se banquetear)
Com suas promessas ao deus-dará,
Endoidecidos e embriagados de ódio,
Só um lampejo na noite fria poderá
Nos salvar da inveja que os alumia.
Um fio de sorte em tua adaga
Fará com a alfazema ungüento
Para curar as feridas abertas
Pela água benta da Fonte da Saudade...
Minha inocência vibrante
Inquieta está a sangrar em seu leito de morte,
Meu peito que arde
Hoje é um tenebroso Mar Morto
De uma miragem febril
A enveredar-se pelos canais abertos
Por chuvas torrenciais em invernos
De comovedora solidão...
Dai-me o teu abrigo, muito vinho e pão!
E terás de mim somente
Júbilo, idílio e gratidão.
Meu Mar Morto deságua na tua foz,
Minha voz calou-se de vez
Quando as trombetas silenciaram
E as tropas começaram sua incursão...
Celerados fizeram cruel varredura,
Escancarada ficou tua boca, minha rua.
Minas e bombas abriram um grotão!
Parece-me que meu desabafo será teu refúgio,
Minha desgraça tua Redenção!
Observação 1: Poema escrito em 22/03/2003. quando da invasão de um certo país do Oriente Médio.
Observação 2: Imagem acima, colagem de minha autoria, a partir de recortes de revistas (feita há quase 10 anos atrás).
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