Bela Época


Saturno, soturno, com seus anéis
Dança bambolê pelo sistema solar.
Entre plumas e paetês também
Um anjo andrógino vive, meu bem, a bailar.

Paul Verlaine esgrima com Arthur Rimbaud
E eu aí, nem estou, pr’aqueles que me cercam
Com suas certezas desmerecidas (em versos sem rima)...
Desfragmentada está a Mocidade
Independente dos acordes de Padre Miguel num piano-bar.

Acorde pra vida, enquanto há tempo...
O trem-bala vem perfurando o vento
E o tempo - todos sabem - não pode parar
Em qualquer decassílabica estação...

Na Estação Primeira de Mangueira
Está penhorado de vez meu coração,
Que verde e rosa, todo prosa,
Baila pela avenida Brasil,
Queimando pelos poros,
Soltando fogos, atravessando o samba
Na doce cadência de um tamborim
E amarga decadência de uma situação.

Ah, tenham dó de mim!
A cuíca gemeu, o surdo ninguém ouviu...
O pandeiro, Jackson esqueceu,
Como bumbo batucou noite inteira, meu coração.

Não! Não! Não!
Sou Carinhoso, Pixinguinha, um mestre-sala,
De saxofone na boca... rompe o silêncio da madrugada.
Sexo por telefone não tem a menor graça!
Por pirraça o rato esperto dribla a ratoeira,
Como um passista dribla a sua fiel companheira,
Seja ela porta-bandeira ou não...
É no Samba-do-Crioulo-Doido que enlouqueço,
Sumo, viro-me do avesso, parto (com dor?) sem avisar....
Quero um dia aprender Esperanto,
Esperando que, com o tempo, alguém possa me compreender
Da mesma forma que eu tento entender, tardiamente,
Esta Bela Época que nos vê do céu, sem nunca nos enxergar...


Observação 1: Poesia escrita em, 29/08/2003, inspirada na expressão Belle Èpoque ou Bela Época, período que vai até 1914, de descobertas e modernismos.
Observação 2: Colagem acima, de minha autoria, a partir de recortes de revistas.

Comentários