O espanto intencional


Dei pra me espantar
Com meus próprios pensamentos,
Com sonhos que não os meus.
Mesmo assim, teimo em acreditar
Que ainda sou o mesmo que
Dia e noite está a me habitar...

Quando os jovens do presente chamam
Ao jovem do passado de Senhor,
Descubro irremediavelmente: envelheci.

Enquanto as utopias falecem
Os moinhos se agigantam
E o descalabro sai para passear
Com seu cão de estimação.

O universo, antes fechado,
Põe-se a mostrar suas fissuras –
Quer a luz pela escuridão vazar.
Infelizmente, ninguém mais sai à rua
Para eclipses sinceros, a olho nu, observar.

O filho da Terra a fórceps
Quer à mãe desentranhar...
A árvore abatida dos dias –
Folhas mortas contadas pelo chão...

E o Tempo, que tudo vê, tudo sabe,
Jura de pés juntos e mãos cruzadas
Que a Esperança, virgem insegura,
Aguarda seu consorte para se casar...

Com sorte, a gota d’água
Da chuva que cai dia sim, dia não
Aqui, ali e acolá poderá,
Um dia, em rio de verdades desabrochar...

Quem sabe o espanto intencional
Provoque na personagem a ilusão
De que sua vida faz-de-conta seja real...

A paixão entroniza o amor:
Informação, decomposição, decodificação.
Na geometria do mundo vivemos em círculos:
Homem e mulher à procura de sua intersecção.
A tragédia da vida em cada um de nós...
Mutilados serão os sonhos de liberdade
De todo Tiradentes à espera da execução...

Dei para me espantar
Com meus próprios medos,
Com minhas mãos e seus cinco dedos,
Com a métrica dos versos e dos dias
No compasso aberto entre a realidade e a ficção...



Observação: Colagem de minha autoria.

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