A Escavação


“Se destruíssemos todos os sonhos dos homens, a terra perderia suas formas e suas cores e nós adormeceríamos em uma cinzenta estupidez”.
ANATOLE FRANCE, escritor francês.

Quando Blim Blom foi para o interior visitar os pais, que não via há anos, só levou consigo uma pequena mochila de viagem, pois não pretendia demorar-se muito por lá.
Depois que o trecho asfaltado da estrada terminou, desceu do ônibus e seguiu por uma estrada de chão batido, por quase três quilômetros e meio a pé.
No meio do caminho para casa dos pais no litoral — ela professora, ele funcionário público aposentado —, viu algo à distância refletir um estranho brilho, encravado no chão.
Seguiu mais um quilômetro até chegar bem perto, descobrindo tratar-se da ponta de uma espécie de antena, talvez de um rádio, de um carro ou coisa parecida. Curioso quis averiguar.
Logo, tirou de dentro da mochila uma colher de metal e começou a cavar o chão duro para desenterrá-la. Depois de uma hora, tinha apenas descoberto um metro de uma estranha antena, enterrada terra adentro, quem sabe por quantos metros mais.
Ali, por aquele caminho, antigamente era mato fechado; depois abriram uma picada, que com o tempo tornou-se estrada do chão para carroças, cavalos, bicicletas, motos, carros e caminhões pesados, modificando o terreno a cada dia de jornada. Então, começaram a surgir aqui, ali e acolá estranhos objetos em cerâmica e metal, que os moradores da região guardavam em seus lares como um troféu sem dar maior importância.
Entretanto, aquela antena (parece que imensa!) permanecia com boa parte de sua estrutura enterrada no solo. Após um dia inteiro de escavação, haviam sido desenterrados somente dez metros de profundidade, e ainda prosseguia terra adentro a tal antena. Talvez por mais alguns metros, pensava ele.
Um agricultor que passava por ali viu seu esforço e lhe emprestou enxada e pá, mas precisou seguir seu caminho até a chácara ali perto. Outros vieram ajudar. Muitos que passavam por ali ficaram. A maioria deles parados dando palpite furado, contando piada e blábláblá...
A notícia correu de boca em boca, indo parar na boca santa de um vendedor ambulante, que comentou com um caminhoneiro errante, que contou a um patrulheiro rodoviário, que alertou aos motoristas sonolentos, que vinham por aquela pequena estrada vicinal, para fazerem um pequeno desvio no caminho, pois um buraco grande estava se criando. Um deles acabou levando o fato ao conhecimento de um jornalista sensacionalista, e este ao seu superior, que avisou ao editor de uma grande revista, que espalhou a notícia para um amigo radialista, que foi ouvido por um repórter inescrupuloso, que espalhou a notícia para o mundo afora, sem averiguar a fonte... E assim por diante... Logo, centenas de militares, policiais, operários, repórteres, moradores e curiosos estavam no local da descoberta, pois diziam coisas fabulosas do mesmo, desde que havia sido encontrado ouro até tesouros maravilhosos de uma antiga civilização.
Blim Blom e mais uma dezena de homens continuavam a escavação, com lanternas de bolso, faróis de carro, lampiões a querosene, etc. até que o prefeito, sabendo do fato, e em época de eleição, mandou instalar imediatamente lá postes de luz, cabines de imprensa, banheiros públicos, telefones, recepcionistas, etc. A ordem era aproveitar a oportunidade e lucrar, lucrar, lucrar até não querer mais.
A notícia circulou o mundo, ricocheteando em satélites e antenas retransmissoras, para antenas receptoras e assim por diante. Um mês após, Blim Blom e mais uma centena de engenheiros e técnicos continuavam a escavação, descobrindo que a pequena antena inicial, na verdade, era uma espécie de torre de transmissão e recepção antiquada. Haviam acabado de desenterrá-la, mas começava agora o cume de um estranho prédio de não sei quantos andares pelo interior da terra. Sabe-se lá aonde iria aquilo terminar. Que outras surpresas aquele achado poderá nos reservar? — perguntaram-se os peritos, falando aos cochichos para Blim Blom não escutar, afinal ele era um leigo que só poderia atrapalhar.
Várias pessoas chegaram a cada hora ao local, juntamente com muitos equipamentos sofisticados. Vieram arqueólogos, antropólogos, sociólogos, psicólogos, parapsicólogos, astrônomos, astrólogos, videntes e oportunistas, é claro. Foi preciso mobilizar as forças armadas para conter o avanço das pessoas e manter o cordão de isolamento em volta daquele maravilhoso achado arqueológico.
Blim Blom permanecia à frente dos trabalhos apesar de ser um leigo. Contudo, como fora o descobridor e ficara mundialmente conhecido, famoso, capa de revistas e jornais, não poderia abandonar aquela obra, justo agora. Estava, atualmente, acompanhado de milhares de homens, num imenso formigueiro humano que a cada dia aumentava, transformando aquele buraco numa enorme cratera que nem as da Lua e de Marte.
Transcorrido um ano, conseguiram escavar e desenterrar do passado um prédio de mais de dez andares. E, por incrível que pareça, com pessoas fossilizadas: a maioria acomodada na rotina do dia-a-dia; outras começando a se preparar para sair do prédio com ar estupefato; poucas correndo com medo talvez da erupção de algum vulcão que tenha soterrado aquela pobre gente por completo; ou, quem sabe, da fúria do patrão que explodira um dia e pusera fogo em Roma, como Nero séculos atrás. A maioria deles presos a uma vidinha água com açúcar, não querendo se arriscar. O tempo os soterrou sem que percebessem, como faz com certas pessoas que se acomodam com a rotina do dia-a-dia, e não fazem nada para mudá-la - não estudam, não lêem, não se informam...
Por ironia, ao invés de terem ali encerrado o gigantesco trabalho, acharam os especialistas sinais de ruas, outras casas e prédios num raio de seis quilômetros daquele marco inicial: a antena; é óbvio! Era uma cidade de porte médio hoje em dia, mas considerável, se levarmos em conta sua idade aproximada... Quase cinco mil anos de idade! Alguns especialistas da área, cheios de teorias e opiniões a respeito de tudo, confundiram postes de concreto (talvez para algum tipo de fiação para iluminação residencial!) com estranhos totens gigantes enfileirados para algum ritual pagão; e pontes abandonadas, catalogadas como mesas para sacrifício gigantes. Alguns chegaram até a aventar a hipótese de que no passado ter havido tribos nômades de gigantes bárbaros e cruéis, que praticavam rituais satânicos (sic). Para eles aquela era a tal terra de gigantes de que falam antigas lendas e ponto final. Eles não sabem, mas também estão soterrados de idéias ultrapassadas, que tentam a todo custo aos leigos empurrar.
Então, o presidente da República, vistoriou pessoalmente o local, declarando patrimônio nacional e tesouro da Humanidade. Achavam os peritos tratar-se de alguma civilização perdida, que havia se instalado na região há mais ou menos cinco mil anos, dotada de uma tecnologia avançada demais para àquela época. Só não sabiam se os dutos que riscavam seu solo eram de esgotos, água tratada ou de alguma espécie de iluminação subterrânea. Aos esqueletos encontrados por toda parte, em posição de resignação e conformidade com sua provável extinção, deram o nome apropriado de “Homo pacatus”, considerando-o, talvez, o elo perdido do Homo sapiens. Parece que de tempos em tempos, de eras em eras o Homem evolui até a exaustão, se autodestruindo e voltando aos primórdios dos tempos (ao marco zero). Então, quando descobrem antigas civilizações - aparentemente mais avançadas do que à atual -, não entendem como estas puderam construir monumentos fabulosos. Talvez daqui a centenas de milhares de anos no futuro nossa civilização atual tenha perecido e uma nova tenha fundado suas cidades sobre as nossas contemporâneas. Daí algum explorador ou quem sabe um desavisado descubra monumentos antigos - do tipo: um enorme homem de braços abertos em forma de cruz, cabelos compridos e olhar angelical sobre o que fora um antigo morro; ou talvez uma imensa mulher com uma coroa na cabeça, um livro em uma das mãos e uma tocha na outra às margens de um mar extinto -, e nada entendam. Nossos restos mortais ao serem achados, para eles, os homens do futuro, sejam apenas múmias paralíticas ou paleolíticas. Vai depender muito da interpretação que os sábios derem ao que não entendam muito bem. Parece que existe uma regressão social, cultural e tecnológica a cada civilização que é descoberta, sempre mais avançada do que a nossa.
Quando finalmente, após dez anos de trabalhos, Blim Blom iria dar por encerrada aquela incrível escavação, eis que ele, passeando por uma das ruelas, que conduzia a uma praça daquela cidade perdida, viu novamente um pequeno brilho, esquecido dez anos atrás em sua lembrança. Ao chegar bem perto percebeu tratar-se da ponta de uma antena; talvez de algum prédio de outra civilização antiga, datada, quem sabe, de mais de dez mil anos a.C. Pelo tamanho e proporção este deveria pertencer a uma construção bem maior do que o Empire State.
Não pensou duas vezes, pedindo a um turista que acompanhava seus passos, de máquina fotográfica a tiracolo, uma colher de metal de sua mochila de viagem, e rapidamente se atirando numa nova escavação. Nem se lembrou que durante este período, jamais havia visitado seus pais, que moravam apenas três quilômetros de distância, e estavam velhinhos e poderiam não resistir por mais tempo. Breve fariam parte de seu passado, que embora possa ser escavado, vez por outra quando a saudade bate, jamais volta a ser como era antes.
— Talvez, na próxima década — pensou ele —, se ao final do trabalho não descobrir outra civilização mais antiga, possa recuperar o que antes era o seu objetivo principal. Todavia, agora já não era mais. Os pais podiam esperar mais uma década, mas aquela escavação não.
Muitos vivem soterrados de problemas por todos os lados, a maioria dos casos criados por eles próprios. Um dia a casa cai, e então nosso mundo passa a fazer parte de uma outra era — quando “éramos” felizes e não sabíamos. Aí, se não nos cuidarmos um pouco, passamos a ser dinossauros de nós mesmos; engolidos por grossa camada de terra, fossilizados com terno e gravata e telefone celular ao lado. Os homens vivem edificando sonhos sobre as ruínas de seus antepassados, e, vez por outra, sobre seus desejos secretos mais acalentados, que jamais realizarão. Talvez, daqui a dois, três, cinco mil anos a civilização atual seja descoberta por arqueólogos do futuro, que ficarão intrigados com o nosso avanço tecnológico. Muitos defenderão as mais variadas teorias não chegando à conclusão alguma. Tudo ficará sepultado em mistério, crendices e superstições infundadas ou não, até que alguém resolva cavar mais fundo. Muito além da realidade superficial que envolve todas as pessoas e suas coisas inanimadas.
Então, as gerações futuras descobrirão que nós, homens das cavernas para eles, usávamos estranhos aparelhos para nos comunicar uns com os outros. Mesmo assim toda a parafernália, hoje existente, fora insuficiente para nos impedir de continuar guerreando uns com os outros, como desde o início dos tempos, segundo o primeiro livro de Moisés, capítulo 11, versículo 1, que já nos dizia há muitos séculos atrás: “Mas todo o mundo tinha o mesmo idioma e a mesma palavra ...” Tempo distante que não volta mais, quando todos falavam a mesma língua, mas não sabiam se comunicar.

Observação: Conto integrante do livro REALIDADE VIRTUAL, publicado pela Litteris Editores (www.litteris.com.br), e lançado em abril de 2004 na Feira Internacional do Livro de São paulo, e selecionado pela editora para participar no mesmo ano da Feira do Livro de Frankfurt (Alemanha).
Observação 2: Este conto está protegido pela lei de direitos autorais.
Observação 3: A imagem acima, colagem de minha autoria, a partir de recortes de revistas.

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